Jack Clark, cofundador da Anthropic, traçou há dias em Oxford quatro previsões que sinalizam a aproximação de um futuro hiperdigital, onde sistemas autónomos decidem, executam e se reproduzem sem supervisão humana constante. O Grupo dos Futuros da APDSI cruza esse horizonte com um segundo eixo, que vai da ordem ao caos e que mede a qualidade da nossa resposta coletiva.O primeiro vetor parece decidido e irreversível. O segundo, esse, ainda está nas nossas mãos e é precisamente aqui que o ímpeto reformista em Portugal parece estar a falhar em três frentes simultâneas.A primeira escolha é entre construir uma administração proativa ao serviço dos mais vulneráveis ou acelerar processos em benefício de quem já detém poder. A reforma do Estado inclina-se claramente para a segunda opção.Os auditórios enchem-se de grandes corporações e consultoras que apresentam soluções em PowerPoint antes de o problema ser diagnosticado. Assinam-se contratos do PRR a correr, com os mesmos fornecedores de sempre, sem concorrência real e sem tempo para perguntar se a solução serve o país ou apenas o calendário político. Esta é a velocidade que o Estado sabe imprimir quando o interlocutor é poderoso.A mesma celeridade evapora-se quando o interlocutor é vulnerável. Portugal já dispõe de repositórios fidedignos, capacidade de interoperabilidade e inteligência artificial aplicável à administração pública. O Estado sabe, ou poderia saber em tempo real, quando alguém perde o emprego, quando os rendimentos caem abaixo do limiar de subsistência ou quando nasce uma criança.Em vez de transformar esse conhecimento em apoio automático e proativo, a reforma da Prestação Social Única (PSU) parte da suspeita e do dogma de que há quem prefira viver de apoios. O cidadão é forçado a provar, formulário após formulário, uma carência que o Estado já podia ter detetado sozinho.Esta lógica de desconfiança estende-se à imigração e ao trabalho. Endurecem-se regras e atrasam-se processos, o que não reduz a imigração, mas amplifica a irregularidade e a exploração.Na reforma laboral, a flexibilidade opera num único sentido, pois facilita despedimentos, enfraquece a negociação coletiva e nunca reforça quem trabalha. O Estado tem a tecnologia para proteger antecipadamente e em vez disso opta por vigiar e suspeitar.A terceira escolha é a mais reveladora, porque expõe aquilo que o Estado decide não ver. A mesma infraestrutura que fiscaliza beneficiários de duzentos euros de prestação social poderia escrutinar a relação entre o poder público e os interesses privados, rastrear conflitos de interesse em contratos públicos, cruzar declarações de património com decisões de gestores e expor benefícios fiscais sem retorno social comprovado.Em vez disso, o Governo acelera o desmantelamento do Tribunal de Contas e alivia a responsabilização dos gestores públicos. A suspeita institucional aponta sempre para baixo e dissolve-se em confiança e deferência perante quem tem mais recursos. A transparência que se exige ao cidadão pobre não se exige ao contrato plurianual que blinda fornecedores e centros de interesse.O resultado é um Estado mais rápido para quem já não precisava de pressa. Para os poderosos, há processos simplificados, contratos sem escrutínio e consultoras que decidem antes do debate público. Para os vulneráveis, restam formulários, suspeitas e demoras. Para o poder público em si, instala-se a opacidade onde devia haver transparência e auditoria.Esta inversão de prioridades seria sempre custosa, mas o custo agrava-se quando confrontada com os relógios de Clark. Se a produção pode em breve desligar-se do emprego proporcional, com taxas de desemprego a tornarem-se sinal de eficiência e não de crise, então é agora, e não depois, que a proteção social tem de deixar de depender de formulários e desconfiança.Se a riqueza gerada por sistemas autónomos se concentrar em meia dúzia de empresas privadas, é também agora que a capacidade pública de auditoria algorítmica e de escrutínio dos contratos tem de ser reforçada e não desmantelada.A prova de uma boa reforma preparada para o futuro não está nos discursos. Está em saber se a mesma confiança concedida ao empresário de Sines será concedida ao beneficiário da PSU, se a mesma rapidez do LicencIA chegará a quem espera uma prestação social e se a reengenharia que eliminou três milhões de documentos servirá, um dia, para tornar transparente e em tempo real cada contrato público assinado em nome dos portugueses.Enquanto isso não acontecer, não temos um Estado novo, teremos o mesmo de sempre, mais rápido para uns e igualmente lento para os outros.Não defendemos menos reforma. Defendemos mais reforma, mais rápida, mas na direção certa. Queremos a mesma pressa do LicencIA aplicada à prestação social. Queremos a mesma reengenharia que eliminou três milhões de documentos aplicada à transparência ativa dos contratos públicos. Queremos um Estado que confie em todos os cidadãos e não apenas nos que já têm capital para investir.Portugal está a construir um Estado que vai responder pior ao choque que aí vem, anunciado por Jack Clark. Um Estado treinado para ser rápido com os poderosos e lento com os vulneráveis não muda esse hábito quando a urgência for real.A falta de uma boa burocracia capaz de proteger e acelerar direitos não é um problema técnico, é uma escolha de prioridade. Acelerar processos para uns, atrasar proteção para outros e evitar o escrutínio de todos não é modernizar o Estado, é apenas um rolo compressor ideológico a decidir de que lado da história prefere estar, em plena corrida para o hiperdigital, entre a ordem ou o caos.