“Não me importo viver num mundo de homens, desde que me permitam ser mulher.” Marilyn Monroe1 (Não em jeito de disclaimer, mas de lamento: na semana passada morreram dois homens que farão muita falta. Lobo Antunes, cujos livros me foram apresentados logo na adolescência pela mulher do meu primo Eugénio de Oliveira, fez-me companhia em muitas tardes passadas em Janas, casa onde fui muitíssimo feliz e que recordo sempre com imensa saudade, quer pelas mais diversas pessoas que ali passaram sempre pelos braços generosos do seu proprietário, quer pelas leituras, iniciadas pela Memória de Elefante, que me marcou para todo o sempre.Nuno Morais Sarmento, advogado, quase sempre nos meus antípodas, grande amante do mar, era um adversário tão leal quanto temível pela inegável inteligência e rapidez. Cada vez mais, sobra a sensação de que os melhores nos estão a abandonar, deixamo-nos entregues a personagens burlescas de histórias lamentáveis, como é, entre muitos outros, o caso agora publicamente conhecido de Mafalda Guerra Livermore.) A frase que dá início a estas linhas foi proferida por um dos símbolos da minha adolescência. Obrigada ao permanente estatuto de sex symbol, Marilyn Monroe acabou por ser vítima desse mundo onde, anos antes, disse não se importar de viver, demonstrando-se assim que, neste caso concreto, estava errada.Ao contrário do que subjaz a esta afirmação, o mundo deve ser de todos, sem qualquer excepção e não há motivo algum para o género, ou aliás qualquer outro, se manter como factor discriminatório.Entre nós, e entre finais da década de 80 e o início da década de 90, houve um banco que confessadamente apenas contratava mulheres para lugares de secretárias, recusando liminarmente a sua selecção, por exemplo, para cargos nas centenas de balcões que abriu, sob a justificação de que faltavam muito por força da maternidade. Nem de propósito, décadas depois e meros dois dias depois da renovada celebração do Dia da Mulher, ainda há quem se questione sobre a respectiva necessidade2.Pese embora que a mera análise empírica do mercado de trabalho e das condições de vida bastasse para a demonstração de que a igualdade entre homens e mulheres ainda se não verifica neste departamento (como noutros, refira-se...), um recente estudo da empresa Randstad veio voltar a tornar oficial o que se sente a cada passo.Na realidade, sem que seja apresentada qualquer explicação objectiva, os salários das mulheres continuam a ser 17,3% inferiores aos dos homens, numa variação que se traduzirá em cerca de –205€ mensais. Tal hiato aumenta de forma expressiva em alguns sectores de actividade, como no caso da Saúde, aumentando o fosso de diferença para 29,6% e, muito em especial, no desporto e nos espectáculos, em que se cifra em –48,5%.Ao mesmo tempo que tais diferenças nos são apresentadas, afirma-se que Portugal é o 3.º país com maior percentagem de mulheres com emprego dito qualificado, mas em que apenas 15,7% chegam a cargos de direcção.Aqui chegados, várias lições se podem e devem tirar, sendo que a primeira é a de que a imposição da igualdade salarial por decreto não é, como aliás nunca foi, eficaz se desacompanhada da competente inspecção e verificação.Por outro lado, quando olhamos para os verdadeiros casos de violência doméstica, uma das questões que deve ser realmente ponderada é, de facto, a assimetria de poder económico entre homens e mulheres, assimetria esta que não advém apenas de uma sociedade que ainda assenta, em parte, no designado poder patriarcal, mas, acima de tudo, na circunstância de, tal como sucede nos conflitos com empregadores, uma das partes ter muito mais dinheiro que outra.A terceira das lições é que o Dia da Mulher deve ser celebrado, mais do que com a entrega de uma flor em estabelecimentos comerciais, no dia-a-dia, todos os dias e em cada casa, com verdadeira e equitativa divisão de tarefas, permitindo-se a cada Mulher a entrega, se assim for o seu desejo, à vida profissional, mas, de igual forma, ao descanso, ao estudo e ao lazer.Por último, sabendo que expresso uma opinião pouco consensual, parece-me que, bastas vezes, as mulheres são as suas piores inimigas, designadamente através da falta de empatia com os problemas das outras, entrando numa espiral de competição que, em vez de engrandecer umas, arrasta todas para a lama.Pela minha parte, fica o desejo de ainda chegar ao tempo em que a celebração deste dia perca a sua razão de ser. Apesar de tudo, ainda não aconteceu e, em tempos de precariedade, não estou sequer certa que não faça cada vez mais sentido. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico 1Nascida Norma Jeane Mortenson, nasceu a 1 de Junho de 1926 e morreu em circunstâncias que ainda hoje não são consensuais a 4 de Agosto de 1962, tendo sido modelo e principalmente actriz, sendo que os papéis que lhe foram sendo impostos colocavam-na sempre no papel de loira burra, cuja graça assentava sempre no seu, aqui consensual, absolutamente estonteante aspecto físico, acabando por ser vítima daquilo que a tornou famosa. 2O Dia Internacional da Mulher começou a ser celebrado no início do século XX (primeira manifestação a 19 de março de 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça em que as mulheres celebraram o primeiro dia, exigindo direito de voto e melhores condições de trabalho), sendo impulsionado por movimentos operários e socialistas na Europa e EUA. O 8 de Março como marco simbólico consolidou-se após greves de mulheres russas em 1917, sendo finalmente oficializado pela ONU apenas em 1975.