Será?

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Por altura da facada espetada pelo desempregado inimputável Adélio Bispo no abdómen do então candidato à presidência Jair Bolsonaro, num comício na cidade de Juiz de Fora, a 6 de setembro de 2018, as teorias da conspiração correram soltas pelo Brasil. 

O termo “facada” chegou a ser substituído nos trends das redes sociais por fakeada, após o lançamento do documentário Bolsonaro e Adélio, Uma Fakeada no Coração do Brasil.

No filme, destacava-se que Adélio visitou o Clube de Tiro .38, localizado no distante estado de Santa Catarina, num dia em que Carlos Bolsonaro, o filho 02 de Jair, também lá estava.

E que Bolsonaro teria aproveitado uma retirada de tumor no intestino para forjar o atentado.

Defendia ainda o autor, mencionando a ausência de sangue na cena do crime, que seguranças privados e agentes da polícia haviam ajudado a esconder a verdade.

Não só a polícia federal, em relatório de 1000 páginas, desmentiu esta última tese, como seria necessário o conluio de dezenas de médicos e enfermeiros, em Juiz de Fora e em São Paulo, para sustentar a teoria do tumor. E sobre a primeira suspeita, a própria porta-voz do Clube de Tiro .38 desmentiu que o filho e o agressor de Bolsonaro tenham coincidido no local.

Mas as teorias da conspiração não servem, claro, para provar nada: apenas para deixar um “será”, seguido de pontos de interrogação, no consciente e no subconsciente das pessoas.

É assim desde que se sugeriu que foi o próprio Nero quem ateou fogo a Roma, para a reconstruir segundo os seus caprichos, embora nenhuma evidência histórica o corrobore.

Ou que Dom Sebastião, afinal, está vivo. Ou que Jack, o Estripador, era membro da família real britânica e que, só por isso, a sua identidade jamais foi revelada. Ou que o naufrágio do Titanic se deveu à influência de opositores políticos e financeiros de algumas das vítimas. Ou que a ida de Neil Armstrong e companheiros à lua foi encenada em Hollywood. Será?

Voltando ao Brasil das redes sociais, terreno ideal para o cultivo de teorias da conspiração, naquela mesma eleição marcada pela facada, que tomou o país de surpresa, Fernando Haddad, o principal rival de Bolsonaro, foi acusado de, caso eleito, pretender atribuir ao governo o poder de decidir qual o sexo dos recém nascidos. Será?

E que o substituto de Lula da Silva, que estava preso à data daquele sufrágio, iria promover mamadeiras (ou biberões, em Portugal) em formato de pénis para combater a homofobia. Será?

Entretanto, os anos passaram e é a vez de Jair Bolsonaro estar preso e de ser outro Bolsonaro, o senador Flávio, a concorrer ao Planalto no lugar do pai contra Lula. Só falta ao primogénito de Jair escolher o candidato a vice-presidente – candidata, aliás, porque o campo bolsonarista já definiu que precisa de uma mulher no ticket presidencial.

Eis então que Eduardo, o Bolsonaro que faltava nesta história, sugeriu nesta semana um nome: o da deputada federal Júlia Zanatta, nada mais nada menos do que a ex-porta-voz do clube de tiro .38 que negou que Adélio e Carlos tivessem coincidido no local. Será?

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