Sempre Algarve azul

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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Nuno Júdice tem razão quando diz que Manuel Teixeira Gomes se evidencia como um dos grandes escritores da nossa língua. A sua prosa é original, o modo como define os sentimentos não tem comparação, o ritmo panteísta é apaixonante, é um cicerone único. “Um sinal de rutura com os hábitos literários da época encontra-se na interseção de géneros na sua escrita: há momentos narrativos, momentos autobiográficos, passagens que poderiam fazer parte de um diário, crítica de arte, apreciações literárias, relatos de viagem: a diversidade não nos afasta nunca de uma lógica que nunca se perde, passando de um tópico para outro de forma natural, refletindo a imensa cultura de quem se mostra identificado com as mais modernas, na sua época, correntes estéticas. É preciso notar que, nesse fim do século XIX e principio do século XX nada de análogo se encontra, não só em Portugal, talvez com exceção de Raul Brandão, mas também noutros países europeus, o que nos permite um acréscimo de surpresa e de admiração por quem, só anos mais tarde, terá num António Patrício um equivalente, ainda que a obra deste seja mais reduzida no campo da ficção”. Talvez a Correspondência de Fradique Mendes e A Cidade e as Serras representem uma porta de entrada para essa vitalidade literária que devemos realçar.

Com os olhos cheios da ambiência algarvia, recordamos o encontro do autor de Inventário de Junho como o poeta João de Deus, entre as memórias de Messines e o diálogo na capital. “Um dia fui ver a aldeia do poeta e estive no adro da igreja contemplando a casa onde nasceu. Depois subi ao escarpado cerro que ali se levanta, quando justamente se transmontava o Sol. Era no fim de junho; pelas encostas dos montes fronteiros escorriam as searas em ondas de oiro roxo e vinham juntar-se ondulando, mas já sem cor, no fundo do vale extensíssimo. Outros montes sem vegetação, meros contornos indecisos de sombras violetas, fechavam muito longe, o horizonte vacilante, e, para o lado do mar, o céu esverdeado perdia, pouco a pouco, a transparência com o misterioso desmaio das turquesas”. Vinham à lembrança as histórias fantásticas das tradições da serra e do “Remexido” ou dos heróis da Patuleia. E o poeta não esquecia o velho barbeiro moralista, metempsicose do

Mirabeau ou ainda o “Compadre”, o da “cachamorrinha para malhados”, pachorrento, sentencioso, metódico, íntegro, saudoso dos velhos tempos de 33, durante o qual recolhera um saquitel cheio de orelhas favoráveis às subversivas proclamações do senhor D. Pedro IV, além do exemplo do alfaiate desvairado dos milagres. Com os seus dez anos da guerra de Troia na lusa Atenas, “ninguém como ele adquiriu tão universal reputação de preguiçoso e perdulário.” Havia, porém que encontrar o vate. Nada melhor do que visitá-lo. “Animei-me a matar saudades. Meses depois nesse mesmo ano, quando passei por Lisboa, fui procurá-lo. (…) Ele não envelhecera e falava não como o eco enfraquecido do que fora, mas revestido da mesma Esperança, pairando ainda à mesma altura e com serenidade talvez ainda mais firme no olhar e no pensamento. (…) As mãos alvejavam, emergiam na penumbra, acudiam-lhe aos lábios, amparando a frase solta por veladas modulações de uma voz de cristal, vibrando entre pregas de veludo”. Mil memórias vinham à ideia. As longas viagens sem transporte definido do Mondego até à serra algarvia; tudo era motivo de mistério e lenda para reencontrar sempre o Agosto azul.

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