“Nunca se esqueçam de que bastará uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam postos em causa. Esses direitos nunca são garantidos. Terão de permanecer vigilantes durante toda a vossa vida.”
Simone de Beauvoir
O relatório The Gender Snapshot 2026 das Nações Unidas foi publicado no dia 17 de setembro de 2026. Trata-se de um relatório anual sobre a evolução da igualdade de género no Mundo, no sentido de monitorizar o processo para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5. Este ODS visa alcançar a igualdade de género, pondo termo a todas as formas de discriminação, de violência e de quaisquer práticas prejudiciais contra mulheres e raparigas nas esferas pública e privada. Apela igualmente à plena participação das mulheres na vida pública e à igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis da tomada de decisões políticas e económicas.
O relatório apresenta factos muito preocupantes, que revelam um retrocesso no combate à discriminação contra as mulheres e no progresso para a igualdade de direitos.
Uma em cada três instituições criadas para fazer avançar a agenda da igualdade de género perdeu poder e sofreu cortes orçamentais nos últimos dois anos, traduzindo-se numa erosão da sua capacidade para fazer avançar os objetivos do ODS 5. O financiamento das organizações e associações de direitos das mulheres reduziu-se cerca de 28%.
Seis em cada sete países são governados por homens e as mulheres ocupam apenas 6% dos cargos de topo na gestão de empresas (Chief Executive Officer), menos de 20% dos lugares nos tribunais superiores e apenas 31% dos investigadores são mulheres.
Perante estes dados, a ONU veio afirmar publicamente que a eliminação deliberada de políticas de igualdade de género reverte décadas de progresso nos direitos das mulheres e que não só as metas desse ODS não serão alcançadas em 2030, como, a este ritmo, só serão atingidas daqui a 171 anos.
Estes números, infelizmente, não surpreendem. Basta lembrar as medidas adotadas por Trump nos Estados Unidos da América no sentido de retirar financiamento federal a instituições médicas, escolas e organizações que apoiem ou adotem políticas de afirmação de género (erradamente referida como “ideologia de género”), incluindo organizações de saúde reprodutiva. A administração Trump também utilizou o financiamento federal para pressionar universidades e instituições a abandonar estudos ou linhas de investigação voltadas para a igualdade de género. No início de 2025, o governo cortou cerca de 600 milhões de dólares em subsídios para formação de professores, por incluir estas matérias nos programas. Harvard tornou-se um símbolo de resistência, ao perder 2,2 mil milhões de dólares em subsídios federais por rejeitar as exigências de Trump.
O crescimento dos movimentos e forças políticas que combatem a igualdade de género e subalternizam o papel das mulheres são um risco para a Democracia. Os direitos das mulheres andam de mão dada com a Democracia, com a liberdade e com a igualdade. Quando estes princípios são postos em causa, as mulheres perdem direitos e é por isso que deposito muita esperança no voto feminino para combater os partidos antifeministas e misóginos. A luta pela igualdade de género é, em si mesma, uma luta pelos valores da Democracia.