Se fosse febre, já tinham ido ao médico

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Publicado a

Muitos pais tratam a saúde mental dos filhos como um detalhe, enquanto fazem da saúde física uma prioridade absoluta. Uma febre mobiliza tudo – consultas, urgências, medicamentos, vigilância. Mas uma criança que deixa de brincar, que se isola, que tem medo, que dorme mal, que anda irritada ou triste, raramente mobiliza a mesma urgência. A saúde física é tratada como inegociável, enquanto a saúde mental é vista como um assunto secundário.

É comum ouvir pais dizerem que “não têm tempo para brincar”. Não têm tempo para conversar, para estar, para aquele tempo especial que é, na verdade, o que mais protege uma criança. Mas têm tempo para tudo o que é urgente, para tudo o que é visível, para tudo o que pode ser medido num termómetro. A brincadeira não é um luxo, é um pilar do desenvolvimento. Quando falta, não falta só diversão – falta segurança emocional.

Ainda mais grave é a forma como muitos adultos minimizam a exposição das crianças à violência. “Eles não percebem”, “Estavam no quarto”, “São pequenos”. Não, não são. As crianças percebem sempre. O corpo percebe. O sistema nervoso percebe. A vinculação percebe. E quando normalizamos gritos, tensão, ameaças, portas a bater, estamos a ensinar que o mundo é um lugar imprevisível e inseguro. Não há vacina para isto. Há consequências.

No mundo digital, o padrão repete-se: ecrãs sem supervisão, conteúdos inadequados, horas de exposição, ausência de limites. Muitos pais acreditam que “é só um vídeo”, “é só um jogo” e que “todas as crianças fazem o mesmo”. Mas o uso não supervisionado de ecrãs está entre os fatores que mais contribuem para ansiedade, irritabilidade, dificuldades de sono e isolamento. A saúde mental não se protege com filtros automáticos, protege-se com presença.

O que tudo isto revela é simples e duro: continuamos a tratar a saúde mental como algo que pode esperar. Como se o sofrimento emocional fosse menos real do que uma infeção, menos urgente do que uma febre, menos perigoso do que uma queda. Mas não é. Uma criança emocionalmente desregulada sofre, e muitas vezes em silêncio. E o silêncio, ao contrário da febre, não dispara alarmes.

Se cuidamos da saúde física com tanta prontidão, por que hesitamos tanto em cuidar da saúde emocional?

Talvez porque a dor emocional exige tempo, escuta e disponibilidade – e isso é mais difícil do que dar um antibiótico. Mas é precisamente por isso que é tão urgente.

A saúde mental das crianças não é negociável. Não é opcional. Não é um extra. É a base sobre a qual tudo o resto se constrói. E quando os adultos falham em reconhecê-la, protegê-la e priorizá-la, as crianças pagam um preço.

Se quisermos realmente proteger as crianças, temos de começar por admitir uma verdade desconfortável: não basta levá-las ao médico. É preciso estar com elas. É preciso vê-las. É preciso ouvi-las. É preciso cuidar daquilo que não se vê.

Diário de Notícias
www.dn.pt