Saramago e Pessoa fazem companhia a poeta curdo durante 30 anos de prisão

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

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Imagine uma vida na prisão que dura mais de 30 anos. A sua consciência está tranquila, mas os tribunais não estão do seu lado. A primavera transforma-se em verão, o verão em outono e depois em inverno. Mas será que a estação do ano realmente importa quando se está confinado a uma cela de apenas alguns metros quadrados?

São decretadas amnistias gerais e parciais; assassinos e violadores recuperam a liberdade, mas para si nada muda. Refugia-se nos livros, desenvolve uma carreira literária e encontra consolo nas obras de José Saramago, Fernando Pessoa e muitos outros.

Depois de passar 30 anos, três meses e oito dias nas prisões de segurança máxima da Turquia e de, finalmente, recuperar a liberdade no final de 2024, o poeta İlhan Sami Çomak não estava com vontade de celebrar:

“Trinta anos da minha vida foram passados na prisão. Agora, aos olhos do Estado, sou um ‘curdo criminoso’, e aos vossos olhos, um poeta curdo. Mas se me fosse dada a escolha: ‘Poesia ou vida?’, eu escolheria a vida.”

Çomak conservou um extraordinário apetite pela vida. Numa conversa, disse:

“Continuava a pensar na avó de Saramago, que escreveu nas suas Pequenas Memórias: ‘O mundo é tão bonito que me entristece pensar que tenho de morrer.’”

Não surpreende, por isso, que uma das suas peças se intitule Vida, Amo-te Muito.

No seu poema Coisas Que Não Estão Aqui, enumera tudo aquilo que falta na vida prisional:

“Não há flores, nem rios, nem pão acabado de cozer, nem mulheres, nem a mudança das estações, nem eclipses da Lua.”

Mas, como afirma o poema, existe “sempre uma saída”.

A sua “saída” foi a literatura e a imaginação.

“No sentido de preencher a palavra ‘vida’ com significado, vivi muito pouco. Por essa razão, refugiei-me na minha imaginação e passei a multiplicar as memórias através da ficcionalização; encontrei apoio na criatividade”, escreve na sua autobiografia Não Destruir o Formigueiro.

Os regulamentos da prisão permitiam-lhe ter apenas sete livros de cada vez. Foi assim que descobriu o Livro do Desassossego de Pessoa.

“Havia qualquer coisa na sua melancolia; a sua obra estimulava a imaginação.”

“Parecia, então, que, tal como Pessoa fizera, era possível resistir à opressão refugiando-se na literatura e na arte e, desse modo, viver novas vidas.”

Depois veio Saramago.

“O que mais me impressionou em Saramago foi a sua firmeza política e a sua determinação em fazer da literatura um meio de a sustentar. Tal como eu, Saramago tinha origens rurais. Além disso, a forma como as intervenções do poder e da autoridade moldam a existência humana – temas centrais na sua obra – aproximou-me naturalmente dele. (…) A sua obra ajudou-me a reconhecer o ‘mal’.”

Nascido em 1973, em Bingöl, no sudeste maioritariamente curdo da Turquia, Çomak cresceu pobre numa grande família alargada, onde a pobreza era constante, mas também o eram o amor e a proximidade familiar. Aprendeu turco apenas depois de começar a escola. Naquela época, o curdo era uma língua completamente proibida. Pertencia ainda à minoria religiosa alevita, uma interpretação mais heterodoxa e moderada do Islão, frequentemente menosprezada numa Turquia predominantemente sunita – discriminação que descobriu quando a família se mudou para Bingöl.

“Parecia, então, que, tal como Pessoa fizera, era possível resistir à opressão refugiando-se na literatura e na arte e, desse modo, viver novas vidas.”

A mãe apenas conseguia identificar aproximadamente a data do seu nascimento.

“Fiz contas, medi, perguntei e investiguei: o tio Rasim tinha ido para o serviço militar no início de março. O dia 8 de março pareceu-me uma data muito apelativa. Nascer no Dia Internacional da Mulher não é propriamente algo que não se inveje. Por isso, decidi que nasci a 8 de março.”

Essa data era 26 dias anterior à que constava no seu registo de nascimento.

“A vida deve-me alguma coisa, e bastante, aliás. Bem, 26 dias é pouco, mas continua a ser alguma coisa.”

Aos 19 anos mudou-se para Istambul para estudar Geografia na Universidade de Istambul. Foi também a primeira vez que viu o mar.

A sua vida mudou abruptamente em 1994.

Retirado de sua casa com base no testemunho de uma “testemunha oculta” curda, foi acusado de pertencer a uma unidade armada do PKK e de provocar incêndios florestais em três locais simultaneamente.

Segundo o próprio, 19 dias de tortura severa levaram-no a assinar uma confissão.

“A morte era preferível” à dor que suportou.

O seu calvário judicial prolongou-se por mais de duas décadas. Um recurso para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos obrigou a Turquia a repetir o julgamento, mas o terceiro processo terminou igualmente com uma condenação semelhante.

Foi absolvido das acusações relacionadas com os incêndios florestais, mas continuou condenado por alegada atividade militante, com base num veredito fundamentado no poder discricionário dos juízes, sem qualquer prova concreta.

A história da Turquia tem sido marcada por revoltas curdas. A mais recente insurgência, liderada pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), causou mais de 40 mil mortes desde 1984, incluindo civis e militares turcos e curdos. O PKK é considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

A população curda na Turquia é estimada em cerca de 15 milhões de pessoas, num país com aproximadamente 85 milhões de habitantes. Selahattin Demirtaş, antigo líder do principal partido pró-curdo legal da Turquia, está preso desde 2016.

A história de Çomak é inseparável desta realidade e ecoa o destino de muitos escritores e poetas turcos que passaram anos na prisão, incluindo Nazım Hikmet, que morreu exilado em Moscovo, e Yasar Kemal, outrora um dos principais candidatos ao Prémio Nobel da Literatura.

Durante o encarceramento, perdeu muitas pessoas queridas, incluindo o seu amado irmão. Em sua homenagem, acrescentou o nome Sami ao seu próprio nome.

Um presente inesperado chegou após 22 anos de prisão, quando conheceu Ipek Özel, académica e defensora dos Direitos Humanos, que liderou uma campanha internacional pelo seu caso e apresentou a sua obra aos círculos literários internacionais.

Çomak foi admitido em várias associações PEN em todo o mundo. Em 2022 recebeu o Prémio da Liberdade de Expressão da União dos Autores da Noruega.

Após a sua libertação, surpreendeu Özel ao embarcar no mesmo avião em que ela viajava e propor-lhe uma nova vida em conjunto. Hoje vivem em Istambul.

“...Ao fim de todos estes anos, ainda não tenho uma resposta sólida para a pergunta sobre o que é a justiça. Porque, nesta questão, tudo é tão mutável, tão volúvel e tão desesperador... Bem, onde quer que uma pessoa sinta dor, é aí que a sua alma sofre. Justiça é que as leis se apliquem igualmente a todos; justiça é não ser preso injustamente; justiça é não ser esquecido...”

"Depois de passar 30 anos, três meses e oito dias nas prisões de segurança máxima da Turquia e de, finalmente, recuperar a liberdade no final de 2024, o poeta İlhan Sami Çomak não estava com vontade de celebrar"
"Depois de passar 30 anos, três meses e oito dias nas prisões de segurança máxima da Turquia e de, finalmente, recuperar a liberdade no final de 2024, o poeta İlhan Sami Çomak não estava com vontade de celebrar" FOTO: Ipek Özel
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