A notícia de que Luís Montenegro ligou ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao selecionador nacional e a Cristiano Ronaldo, na sequência da decisão tomada por este último de abandonar o estágio da selecção, causou grande comoção nacional.
À tinta e ao tempo gastos no trabalho noticioso e especulativo em torno da polémica decisão tomada pelo capitão da selecção portuguesa somou-se mais tinta e tempo gastos com notícias e especulações em torno do envolvimento direto do chefe do governo no enredo, das razões que o motivaram, dos contornos concretos que assumiu, do conteúdo e termos da sua intervenção na contenda.
E o caso não é para menos. Afinal de contas, tratando-se de tão momentosa quanto inesperada decisão de abandono da equipa nacional por parte do maior jogador de futebol português de todos os tempos, alguma justificação há-de ainda ser-nos dada para nos convencer de que os valores em presença justificavam a pronta intervenção do chefe do governo que se encontrava em funções naquela circunstância.
Afirmo isto com a expectativa de poder ainda ouvir tal justificação e sem dela pretender escarnecer a priori. Mas, enquanto ela não surge, não escondo a minha preocupação e surpresa.
Preocupação com o facto - apenas aparente mas muito plausível - de o telefone do primeiro-ministro estar avariado e não lhe permitir tomar iniciativas de idêntica galhardia em todas as circunstâncias que justificam a sua intervenção.
Com tanto problema à face da terra, só o facto de aquele telefone estar avariado pode justificar não se ter até hoje conhecido idêntica iniciativa telefónica por parte do Primeiro entre os ministros noutras circunstâncias igualmente merecedoras.
Da agressão dos EUA ao Irão (que o governo português apoiou com a cedência da Base das Lajes) ao genocídio em Gaza, do aumento do custo de vida passando pela crise na habitação, não faltam ocorrências a reclamar do Primeiro-Ministro igualmente determinada intervenção telefónica.
Fosse para se inteirar da real e efectiva dimensão de cada um desses problemas, fosse para intervir directamente sobre eles no sentido de lhes encontrar solução, seria de grande utilidade que Luís Montenegro dispusesse de um telefone plenamente funcional que lhe permitisse, em todas as circunstâncias igualmente merecedoras, intervir telefonicamente a bem do interesse colectivo. Intervenção seguida, naturalmente, de notícia pública de que tal havia ocorrido para que o povo pudesse adequadamente valorizar a magnanimidade de tal atitude.
Não escondo também a minha surpresa com quem se afirmou surpreendido com a intervenção primeiro-ministerial.
Para tratar dessa surpresa, socorro-me das palavras de Miguel Torga que, melhor do que eu alguma vez o poderei fazer, já antes tratou dela nestes termos: “E o encanto da vida é precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsível. Nem no mal nem no bem. E não me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, à luz dos acontecimentos. (...) Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem.”