Roda dos Alimentos ou Roda das Prescrições?

Diana Silva

Vogal da Direção e representante da Ordem dos Nutricionistas na Madeira

Publicado a

No rescaldo do Dia Mundial de Luta contra a Obesidade o contexto atual é pouco animador.

Os números revelam uma realidade alarmante e um problema de saúde pública que continua por resolver, sem vislumbre de solução. 

Sim, porque a solução não passa por uma única via, como atualmente se quer fazer passar: a da medicalização e desresponsabilização do utente.

Eu explico:

 Como se não bastasse a crueza do panorama, vivemos uma crise de alegada "humanização" perante os cidadãos que padecem desta doença crónica, por uma parcela importante dos profissionais de saúde.

"Humanização" esta, baseada numa desculpabilização da doença para justificar uma abordagem terapêutica e consequente desvalorização da intervenção nos estilos de vida.

Colocar a resolução da obesidade meramente no prisma terapêutico não é sério e não assenta na evidência científica.

Eu não conheço nenhuma doença cujo o tratamento não se baseie na causa da mesma. Ignorar esta premissa é desonesto.

A obesidade, não tendo uma causa secundária, deve-se a uma alimentação inadequada e sedentarismo.

Ponto final, parágrafo!

É uma doença crónica? Sim.

É complexa e multifatorial? Sim.

Concordo que devamos ser empáticos e compreensivos, como o devemos ser com qualquer utente com uma doença crónica.  Mas desvirtuar estas premissas com o intuito de desvalorizar as razões que levaram ao aparecimento da mesma não é sério, e não irá conduzir à resolução do problema.

A saúde não é um negócio. Os utentes merecem respeito e a segurança de que dedicamos o nosso conhecimento de forma personalizada, ética e profissional.

Não será menorizando os erros alimentares e a inatividade física que demonstramos eficácia na solução.

A obesidade sendo complexa e multifatorial não passou a ter uma única abordagem clínica. Pelo contrário, requer intervenção multidisciplinar e diferenciada, rentabilizando o conhecimento atual.

Como é que nos dias de hoje, com tanta informação disponível, nos tornamos tão redondos, permeáveis e acríticos?

Não estamos a servir o cidadão com o que de melhor a ciência nos premeia e a uma velocidade alucinante.

E como é que persistimos no erro de não apostar na prevenção.

O que é melhor para os sistemas de saúde? Investir na prevenção ou no tratamento da doença? Investir na promoção da saúde ou na promoção da doença? Investir na literacia ou na desinformação? Investir na responsabilização da saúde individual ou num paternalismo condescendente dos excessos?

Deixou de ser relevante o utente ter as rédeas sobre a sua própria saúde? Ou essa premissa deixou de ser válida, mas só para a obesidade?

Eu acho que as respostas são claras.

O compromisso com a saúde deve começar no próprio utente. Nenhuma intervenção começa se o indivíduo não estiver disponível para mesma. E tratá-lo como um incapaz, irresponsável não encontra respaldo nem nas ciências da saúde, nem nas ciências sociais.

Imaginem, por absurdo, sugerir a um cidadão-utente que não há problema em "torrar" dias ao sol, sem protetor, pois descobriu-se a cura do melanoma?  Ninguém compreenderia. 

Que é um processo fácil? Não é. Mas a solução está no todo, e a mudança comportamental é fundamental para concretização de resultados. 

Todos os utentes devem e merecem ser tratados, mas, para inverter este cenário, o investimento também tem de ser feito a jusante. Caso contrário continuaremos a combater uma luta desigual com um prognóstico muito reservado.

Diário de Notícias
www.dn.pt