‘”Ressacs - Une Histoire Touarègue”: let’s look at a trailer!’

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

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É um gosto ver a relação que um nómada tem com o chão. E estes ciganos do deserto, não se deitam na areia, como nós nos deitamos na praia. O chão é a cama, por isso não lhes doem as costas, já que ajeitam o chão ao corpo e não o contrário!

“Uma casa abandonada, junto a um mar também abandonado”, serve de mote para um dignitário Kel Ansar, logo no início, dar o tom à sinfonia da identidade, que se segue. Qual é o papel e o posicionamento dos Kel Ansar, de Tombuktu, no mundo e na grande confederação tuaregue?

Entra a guitarra e o Griot, o cantador da História, dos povos de tradição oral. Toda a tribo tem o seu Fernão Lopes, e se nós carpimos desgraças no mar, estes povos carpem em terra!

O silencio, a ruína, as rugas, as rezas e um bibliotecário, que faria as delícias de qualquer alfarrabista, e que anuncia o fim dos tempos para os nómadas, passam de aguarela em aguarela. Acende-se um lume que se cheira no écran, e lá atrás, outro cabeça-de-casal, amanha um cabrito no chão, à falta de árvores para o pendurar. E reparo que o bicho está esfolado de forma a servir de tapete a si próprio. Ou seja, o animal é desmanchado, de forma a que tudo é esquartejado, sobrando a pele do cabrito, que é também a sua reputação!

Os Kel Ansar sabem que a ASAE também chegará a Tombuktu, como chegou a Beja, e o seu estilo de vida será ameaçado. É este o fim dos tempos referido pelo bibliotecário. Saber que sua memória não poderá ser honrada, como ainda o conseguiu fazer, ao comer, dormir e deslocar-se como seu pai e avô. Com a tenda, a biblioteca, a família e os animais, para onde o vento lhe indicasse pasto e uma “pouca d’agua”, como se diz no Alentejo.

Era inevitável cá chegar, porque a minha mágoa é ver o “Alentejo da açorda de côdeas” (nem sabem a graça que achei quando vi pela primeira vez as “açordas” que se servem nos restaurantes. Vi “sopa de migas”!). A mágoa, dizia, é ver o Alentejo na moda!

Porquê esta ligação?

Porque os Kel Ansar, retratados nesta “ressaca do despaisamento”, antes de se instalarem em Tombuktu, passaram pelo Al-Andalus, durante o século XV, seguindo caminho para África, ainda antes de 1492.

E porque nunca mais vi os ajuntamentos de clãs, a cada matança de porco, na aldeia do meu pai. Proibir práticas consuetudinárias, é a forma mais eficaz de rasgar um fio condutor que liga por afetos, chamando-se depois “tecido social”. Proibindo a razão para o reencontro, é rasgar esse tecido, é criar vazios que levam à frustração e posterior rejeição. É por isso que Portugal é rejeitado pelos portugueses. Porque um povo, que sabe que foi colonizador, jamais se quer sentir colonizado!

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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