Respira miúdo, respira

Carlos Godinho

Ex-Diretor das Seleções Nacionais

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Estávamos em Junho de 2003 e Rui Caçador, então selecionador Sub-20, entrou no meu gabinete a solicitar autorização para que pudesse convocar Cristiano Ronaldo para a sua seleção que iria participar no Torneio de Toulon e que, por razões que a razão desconhecia, não tinha sido convocado para a seleção de Sub-18 que participaria na fase final do Campeonato da Europa da categoria. Claro que a minha resposta foi positiva dado que LF Scolari já estaria com vontade de o convocar para seleção AA em agosto.

Cristiano foi considerado o Melhor Jogador Jovem do torneio e Portugal ganhou de forma categórica a prestigiada competição.

Nessa altura já se falava da sua irreverência, mas também da sua enorme qualidade como jogador. No momento o jovem jogador em ascensão era Ricardo Quaresma que já tinha sido convocado em junho, mas Flávio “Murtosa”, adjunto de LF Scolari informou-o que havia “um guri” em Alcochete, que era ainda mais fantástico.

E assim, em agosto, como se previa, com 18 anos, aconteceu a estreia na seleção AA, em Chaves com o Cazaquistão, substituindo Luís Figo, o 7 do momento para o do futuro.

No decorrer do jogo, CR, começou com as arrancadas em enorme velocidade que era a sua principal característica, a tal ponto que o Fernando Couto lhe gritou: “Respira miúdo, respira.” Nesse jogo percebeu-se logo o que aí vinha.

Carlos Godinho e CR7.
Carlos Godinho e CR7. FOTO: DR

Depois foi o Euro 2004 e o mundo a olhar pela primeira vez para aquele que viria a ser o Melhor do Mundo em cinco ocasiões, e um dos melhores de sempre. Nascia aí a Lenda. O resto todos conhecemos, títulos, mais títulos, golos, mais golos. Uma história que globalmente ainda não terminou.

Não nos esqueçamos de que, em 2007, usou pela primeira vez a braçadeira com 22 anos acabados de fazer. Estávamos em Londres para um particular com o Brasil e LF Scolari transmitiu-me que queria entregar-lhe a braçadeira porque era um jogo de dimensão mundial e ele já era uma figura de topo mundial e o futuro da seleção. Disse-me assim: “Sei que não vou ter unanimidade, mas acredito que é antecipar o futuro, mais vale começar já a fazê-lo sentir a responsabilidade desta decisão do que mais tarde. Antecipamos os problemas e ganhamos com a experiência que mais vai adquirir.” Não foi, de facto, uma decisão unânime, mas foi uma visão de futuro.

Momentos extraordinários que todos vivemos, o país sempre na expectativa do título maior que acabou por acontecer em 2016, seguido de duas Liga das Nações. Ficou a faltar o Campeonato do Mundo, que um dia chegará, mas já sem CR7.

Falar do seu percurso, dos jogos, das enormes alegrias que nos proporcionou enquanto jogador da seleção é hoje fácil, mas foi um percurso bastante difícil num espaço em competição com grandes países quando nós somos, só, cerca de 11 milhões. Não tínhamos os meios que os grandes da Europa e do mundo já possuíam. A Cidade do Futebol só foi inaugurada em 2016. Coincidência com o título? Não me parece.

Em tudo o que eram prémios coletivos e individuais estava quase sempre lá alguém que era nosso e nos representava, primeiro longinquamente, com Eusébio, depois com Luís Figo e posteriormente com Cristiano, num espaço temporal já bastante alargado. As alegrias que todos vivemos de inacreditáveis vitórias muito lhe devemos. Desde 2000, ainda sem CR, consecutivamente, até hoje, presenças em todas as grandes provas, são fruto de um grupo alargado de pessoas, de todo o futebol português, mas se tivéssemos de personalizar tudo isso numa só figura era em Cristiano que o faríamos. Portugal é Cristiano, Cristiano é Portugal, falando de futebol obviamente, mas que em muitos aspetos ultrapassa de forma avassaladora o futebol.

Não foi um jogador unânime, arrastou contra si alguns ódios, muitas vezes inexplicáveis. Misturou-se muitas vezes o Jogador com o Homem, mas, para mim, o que conta é a sua enorme grandeza enquanto atleta, incomparável e inigualável.

Vamos sentir saudades. Já sentimos saudades.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico