‘Requiem’ para Puccini

Pierre Brévigon

Autor e crítico de música

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E se Turandot fosse uma autobiografia disfarçada de Puccini? Uma questão fascinante levantada por Daniela Kerck no Operafest Lisboa e Oeiras e uma aposta certeira.

Tal como nos anos anteriores, o Mosteiro da Cartuxa, em Caxias, serviu de cenário/ escrínio para a abertura da nova edição do Festival de Ópera de Lisboa. Ao sentarmos-nos no vasto pátio deste edifício abandonado, agora um espaço de intervenção para artistas de grafíti, era impossível não notar a perfeita sintonia entre o espaço e o espetáculo que ali se desenrolava. Que cenário melhor, afinal, do que um edifício histórico assim “reinterpretado” para acolher uma produção de Turandot que revisita radicalmente não só a obra, mas também a vida do Mestre de Lucca?

A última ópera de Giacomo Puccini apresenta um paradoxo fascinante: embora contenha uma das árias mais famosas do repertório para tenor em todo o mundo, Nessun dorma, é também uma das óperas mais difíceis de compreender, pois sempre lhe faltou um elemento crucial: o final. Na estreia póstuma, Arturo Toscanini largou a batuta após a cena do suicídio da escrava Liù e anunciou ao público do Teatro alla Scala, em Milão: “Aqui termina a ópera, exatamente no local onde o mestre morreu.”

A Princesa Turandot no centro do palco durante o confronto dramático com Calaf (à esq.) durante o espetáculo do   Operafest Lisboa, em Caxias.
A Princesa Turandot no centro do palco durante o confronto dramático com Calaf (à esq.) durante o espetáculo do Operafest Lisboa, em Caxias. FOTO: António Saldanha / OperaFestLisboaOeiras

Este Finale existe, contudo, em diversas versões, sendo a mais famosa aquela encomendada pelo próprio Toscanini ao compositor Franco Alfano. Cada versão oferece um final feliz em que a sanguinária Princesa Turandot, conquistada pelo amor, se casa com o Príncipe Calaf, o único de seus pretendentes a escapar da decapitação por ter respondido aos três enigmas. Outras produções privilegiam a versão inacabada, como a de Paco Azorin em Avignon, há dois meses, ou a de Pier Luigi Pizzi em Torre del Lago, em 2024. Nenhuma dessas leituras, porém, atinge a profundidade daquela oferecida em Lisboa pela encenadora alemã Daniela Kerck, uma remontagem de uma produção criada em 2024, em Wiesbaden.

As pistas são dadas, mesmo antes das primeiras notas soarem. Uma vasta biblioteca, um piano, os gritos das gaivotas e o som das ondas: estamos na Riviera Italiana, na villa onde Giacomo Puccini trabalha na sua nova ópera. Uma pantomima revela-o numa acalorada discussão com duas mulheres, antes que uma mudança de cenário, materializada pela iluminação de Sérgio Moreira e pelas projeções de vídeo de Astrid Steiner, mergulhe o público no tempo e cenário habituais de Turandot: o palácio de Altoum, imperador da China medieval, onde mais um pretendente ao coração de sua filha e ao trono de seu império está prestes a perder a cabeça. A saturação do espaço cénico pelos membros da guarda imperial e o preto monocromático dos seus trajes estabelecem imediatamente uma atmosfera de angústia, reforçada pelos sons marciais da Orquestra Filarmónica Portuguesa e pelo timbre imponente do Mandarim (Diogo Oliveira), proclamando o decreto imperial.

Os três protagonistas, vestidos de branco, desempenham um “papel secreto” que alude a um episódio sombrio da vida do compositor: o Calaf de Rodrigo Garull, a Liù de Aida Pascu e a Turandot de Olesya Golovevna também personificam Puccini, a sua jovem criada Doria Manfredi e Elvira, a esposa do Maestro que acusou a jovem de ter um caso com o marido, levando-a ao suicídio.

Momento do Acto III da ópera 'Turandot', com Calaf seguranadp o manto imperial da Princesa, para simbolizar a queda da sua armadura de gelo.
Momento do Acto III da ópera 'Turandot', com Calaf seguranadp o manto imperial da Princesa, para simbolizar a queda da sua armadura de gelo. FOTO: António Saldanha / OperaFestLisboaOeiras

Essa mise en abyme, que poderia ter sido mais explícita, revela como a arte pode transfigurar um sórdido melodrama doméstico. De facto, Puccini coloca-se no “papel bom”: embora tenha deixado a sua esposa acusar Doria, sem tentar defendê-la, e tenha pagado à família da jovem suicida, para evitar um julgamento, retratando um Calaf dominador com Turandot (o tenor mexicano também confere acentos viris ao seu triunfante Nessun dorma e agarra Turandot como um saqueador que agarra no seu saque), e uma Liù apaixonada com um rigor moral que condiz com sua lealdade (a comovente Aida Pascu, presença delicada e impressionante em autoridade vocal em Signore ascolta e Tu, che di gel sei cinta.

A soprano russa, cujo timbre é irresistivelmente sedutor, infelizmente prejudicado por um vibrato acentuado no seu In questa reggia, esforça-se por dar uma certa humanidade à tirânica Turandot, mas o final escolhido por Daniela Kerck põe fim rapidamente à sua redenção.

Após o suicídio de Liù (um eco perturbador do suicídio da criada de Puccini), instala-se um longo silêncio, logo seguido pelo Requiem Aeternam para coro, harmónio e viola, uma peça raramente executada, composta por Puccini em homenagem a Verdi. Um retorno ao mar, às ondas e à clareza do céu, enquanto o compositor parte, no limiar da morte, acompanhado por Turandot, e Liù permanece sozinha à boca de cena. Um sorriso radiante ilumina o seu rosto. Em paz, sem dúvida - vingada, talvez?

Cena final de 'Turandot': o sacrifício amoroso da escrava Liù, que se suicida.
Cena final de 'Turandot': o sacrifício amoroso da escrava Liù, que se suicida. FOTO: António Saldanha / OperaFestLisboaOeiras

Num conjunto vocal coeso, enriquecido pela direção de Osvaldo Ferreira, que faz jus às cores caleidoscópicas da orquestra de Puccini, o ministro Ping (Tiago Amado Gomes) e seus acólitos Pang (Bruno Almeida) e Pong (Alberto Sousa) destacam-se. O humor bufo de suas intervenções, remete às origens da commedia dell’arte na fábula teatral de Carlo Gozzi, sem impedir momentos particularmente bem-sucedidos de ternura e melancolia (no trio Ho una casa nell’Honan...). O Timur de Nuno Dias, remetendo a Rei Lear, permanece firme no meio da turbulência teatral da cena de abertura, e Luís Caetano incorpora o seu imperador com a esperada dignidade declamatória.

Mais uma vez, os agradecimentos são devidos ao coro da Operafest, preparado por Filipa Palhares, que demonstra excelência cénica à altura de sua perfeição vocal e contribui decisivamente para o sucesso desta noite.

Première Loge - L’art lyrique dans un fauteuil

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