Após meses e sucessivos adiamentos, o país ficou a conhecer o relatório da Comissão Técnica Independente sobre os incêndios de 2025. Não me vou alongar sobre a futilidade de alguns destes exercícios de reporte, que mais parecem destinados a lavar consciências pesadas do que a servir de guia de combate, com linhas de ação definidas e responsabilidades claramente atribuídas.Neste caso, o relatório da CTI surge antes da pior parte da época de incêndios, mas fora do prazo para mudar o plano já este ano. É, portanto, uma reflexão para anos futuros, com algumas recomendações e um subtil apontar de dedos aos vários lados das bancadas do Parlamento. Mas extrai conclusões superiormente úteis para os decisores políticos que as queiram considerar.A primeira é que a reforma do território continua a ser um problema central. No ano passado arderam 271 mil hectares e 32 incêndios foram responsáveis por quase 90% de toda esta área. A pergunta que atravessa o relatório é simples: por que razão estes incêndios cresceram tanto quando existiam meios, informação e condições para os travar mais cedo?. A resposta é desconfortável. A gestão de combustíveis (ou seja, árvores e mato) continua estruturalmente insuficiente e o território permanece de tal forma vulnerável que nenhum dispositivo operacional, por maior que seja, consegue suprimir os maiores fogos.O ataque inicial mantém taxas de sucesso acima dos 90%, mas esse número é enganador. Nos incêndios com potencial de expansão rápida, o sucesso cai para 55%. E são esses que definem o ano. A Comissão identifica padrões repetidos: meios concentrados junto a povoações, ausência de análise prospetiva, decisões dependentes da experiência de poucos especialistas, equipas exaustas e rendições insuficientes. O sistema reage ao fogo, não o antecipa.O relatório também aponta outro elemento vital: a reforma pós‑incêndios de Pedrógão (2017) continua a meio caminho. A integração entre prevenção e combate não saiu do papel, a profissionalização avança devagar, a especialização é desigual e muitos instrumentos previstos no Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais continuam por concretizar.A conclusão da CTI sobre os fogos de 2025 alinha com vários outros estudos, análises e relatórios de especialistas que olharam para outros setores do país. “Sem alterações estruturais, não se preveem melhorias relevantes para mitigar o problema dos incêndios rurais em Portugal”, pode ler-se.É o mesmo diagnóstico, a mesma crítica que consta num trabalho recente do Nobel da Economia James Robinson e do economista Nuno Palma no qual dizem que reformas estruturais da Justiça e da Administração Pública são críticas para a nossa economia. É o mesmo do relatório do professor Jorge Bravo, quando alertou para a urgência de reformas estruturais para assegurar a sustentabilidade da Segurança Social.."Uma casa com tantas das suas estruturas a precisar de reformas é, literalmente, só fachada. Algum brilho para cativar os turistas e demasiado pouco por trás.”.É o mesmo do trabalho do Conselho de Finanças Públicas, do passado mês de junho, que aponta a necessidade de reformas estruturais para garantir que o SNS consiga servir uma população em que 1,5 milhões de cidadãos não têm médico de família.Há outros trabalhos, com diagnósticos semelhantes de falta de reformas estruturais para a Educação, para o sistema Fiscal, para as autarquias, para o uso dos Fundos Europeus. A lista é extensa e quase pouco digna de um país da UE e do Euro. Uma casa com tantas das suas estruturas a precisar de reformas é, literalmente, só fachada. Algum brilho para cativar os turistas e demasiado pouco por trás.