Refém

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Eli Sharabi fez em fevereiro 54 anos. E na mesma altura ganhou com o seu Refém o National Jewish Book Award, um prémio atribuído nos Estados Unidos a livros publicados em inglês sobre temas ligados ao judaísmo. Foi um reconhecimento pelo valor testemunhal do que escreveu, o primeiro relato publicado (originalmente em hebraico) por um dos israelitas que a 7 de outubro de 2023 foram raptados pelo Hamas e levados para Gaza. Um testemunho sóbrio, mas emocionante no mais profundo dos sentidos, o relato de 491 dias de cativeiro, a grande parte nos túneis construídos no minúsculo território palestiniano, bastião do movimento islamita que surpreendeu Israel há três anos com um ataque terrorista que fez cerca de 1200 mortos e levou mais de 250 reféns, ao qual se seguiu uma guerra terrível, com dezenas de milhares de mortos em Gaza e frentes várias que vão do Líbano ao Irão. O Médio Oriente está hoje diferente? Está. Mas em que sentido?

Apenas já depois do segundo aniversário do ataque os últimos reféns vivos foram libertados, graças a um plano de paz americano que em grande medida continua por aplicar. E só em inícios de 2026 o corpo do derradeiro refém foi encontrado e devolvido à família, em Israel. Este é, portanto, o primeiro aniversário do 7 de Outubro sem reféns em Gaza. Acontece a poucas semanas de eleições em Israel, com a campanha a ser marcada também pela discussão sobre as falhas de segurança naquele dia, mas não tanto pela dimensão da retaliação israelita, sobretudo em Gaza, criticada até por um aliado tão fiel como são os Estados Unidos.

Falo de Eli Sharabi porque escreveu um livro-testemunho que merece muito ser valorizado. Li-o há vários meses, mas fui adiando a escrita de uma crítica. Hoje, e isto não é uma mera recensão, justifica-se muito falar de Refém. É impossível esquecer o que se passou, é impossível também não perceber que o que se passou naquela data explica muito do que aconteceu depois no Médio Oriente, e do que vai continuar a acontecer, pois a onda de choque prossegue. A desconfiança entre israelitas e palestinianos provavelmente nunca foi tanta. Se um dia pararem de guerrear e se entenderem, e deveriam fazê-lo, será sem esquecer o 7 de Outubro e o que se seguiu.

Desculpem aqueles que estejam a pensar ler Refém por revelar aqui pormenores sobre o sofrimento de Sharabi, mas tenho de acrescentar que entre os mortos do 7 de Outubro estavam a mulher e as duas filhas, que pensou terem sido poupadas pelos terroristas, quando ficaram para trás, no kibbutz Be’eri, enquanto ele era empurrado para dentro de um carro e levado. Só perto do final do livro, Sharabi fala dessa perda imensa. Cronologicamente faz sentido, pois descobriu quando o libertaram. Mas quem acompanhou a sua história nos jornais, a sua vontade de continuar a viver, sabia desse terrível desenlace antes de começar a percorrer as páginas.

No livro, é um momento que, sejamos surpreendidos por ele ou não, angustia. Sharabi é entregue pelo Hamas à Cruz Vermelha. Depois, a Cruz Vermelha entrega-o aos militares israelitas. Uma oficial aproxima-se. Provavelmente, pensa o próprio ex-refém, uma assistente social ou uma psicóloga. Sharabi reconhece-a. Terá conhecido a militar e o marido num evento qualquer, dois anos antes, numa outra era do ponto de vista dos israelitas, dado tudo o que se passou no 7 de outubro de 2023 – digo eu que visitei o memorial às vítimas no Festival Nova, o kibbutz Nir Oz (onde vivia a família Bibas) e estive no abrigo da Estrada 232, junto a Re’im, onde o Hamas metralhou dezenas de jovens e atirou ainda granadas.

Dizem-lhe que agora está em boas mãos. E que a mãe e a irmã estão à sua espera no ponto de encontro em Re’im. Sharabi pede que o levem à mulher e às filhas. Segue-se o silêncio. E depois uma curta frase: “A sua mãe e Osnat informa-lo-ão.” O seu pensamento, conta no livro, foi: “A minha Lianne, a minha Noiya e a minha Yahel não estão.”

Todo o livro, até àquele momento, é o relato da determinação de Sharabi em sobreviver. Por ele e pela mulher e as filhas, que por terem passaporte britânico talvez, pensava, o Hamas não as tocasse. É o relato da vida nos túneis, longos meses sem ver a luz do sol, sem respirar ar fresco, sempre vulnerável aos humores dos guardiães, que perante a guerra que era travada lá em cima, com Israel a bombardear, só não se vingavam nele, e nos outros reféns, por terem ordem para os manter vivos. Mais cedo ou mais tarde serviriam de moeda de troca com presos palestinianos em Israel.

Mesmo assim, Sharabi foi espancado e passou fome. Um pedaço de pita oferecido meio às escondidas por um guarda menos rígido passou a ser algo muito valioso para quem sentia o corpo definhar. Ter um pouco de água para se lavar era um luxo que raramente os raptores concediam. Estudar os homens do Hamas passou, por isso, a ser essencial. Sharabi sabia que nenhum deles hesitaria em matá-lo se recebesse ordens para tal, ou se ele tentasse fugir. E atribuiu-lhes nomes, como Sorridente ou Triângulo. Havia uma lógica nestas alcunhas partilhadas entre os reféns, e Sharabi passou muito tempo com outros três.

O livro é também interessante pela descrição da relação entre os reféns, pelas longas conversas entre eles, os relatos trocados sobre o que eram as suas vidas antes do cativeiro. Havia momentos de tensão, a necessidade de saberem partilhar comida quando esta escasseava. Sharabi foi especialmente protetor de Alon Ohel, que tinha 22 anos quando foi raptado no Festival Nova. Ao ser libertado primeiro, ligou aos pais do pianista a dar-lhes força, a dizer que o filho estava bem e que seria capaz de resistir. Um simbólico piano amarelo a lembrar Ohel estava exposto na chamada Praça dos Reféns, em Telavive, quando a visitei algum tempo depois dos sequestros. Foi só ao fim de 737 dias que o Hamas libertou Ohel. Mais tarde, este disse ter sido a confiança que lhe incutiu Sharabi aquilo que lhe deu forças no cativeiro. E reencontraram-se. Até foram à televisão falar juntos sobre a sua amizade iniciada nos túneis de Gaza.

Na Semana da Moda de Telavive, em finais de outubro de 2025, já depois do regresso a Israel dos últimos reféns vivos, Sharabi surpreendeu ao aparecer na passarela como modelo, usando um fato branco de excelente corte. Recuperara peso. Recebeu uma ovação. Reconhecem-no agora na rua em Israel. Donald Trump recebeu-o na Casa Branca.

A vontade de viver, uma vontade de viver que lhe permitiu resistir ao cativeiro nos túneis do Hamas, transparece ao longo de todo o livro. E admiravelmente essa continua a ser a marca deste israelita, cujo irmão Yossi, também sequestrado, morreu em Gaza. Li há dias no Jerusalem Post que está a criar em Ashkelon, em homenagem à mulher e às filhas adolescentes, um centro que vai oferecer serviços para pessoas com deficiência e cuidados a vítimas de trauma. E hoje Sharabi vai estar no centro da cerimónia organizada pelas famílias das vítimas, em Telavive, a assinalar os trágicos acontecimentos de há três anos.

Refém está disponível em português numa edição da Guerra & Paz. Não é um livro de geopolítica. É um livro a testemunhar algo que, como tantos outros episódios de sofrimento que acontecem no Médio Oriente, nunca deveria ter acontecido.

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