‘Quo vadis’, PS?

Paula Marques

Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa

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Há um momento na política em que a vontade de parecer responsável deixa de ser virtude e passa a ser indefinição. É precisamente aí que parece estar o Partido Socialista de José Luís Carneiro.

A aprovação da Prestação Social Única (PSU) no Parlamento, viabilizada pelo PS, é um bom exemplo disso. A narrativa de uma grande vitória, de que fizeram vergar o Governo e que impediram um mal maior, não convence.

A Prestação Social Única agora aprovada, do que é conhecido, não vem no sentido de melhorar o quadro das prestações sociais não-contributivas. A prometida simplificação administrativa pela agregação dos apoios não representa uma mudança de paradigma. Mantém-se a lógica do trabalho-castigo, a junção de prestações demasiado diversas continuando sem resposta questões fundamentais sobre os novos valores das prestações. Mas a questão mais relevante já não é só a medida. É a posição do PS.

Como espera apresentar-se aos portugueses como alternativa à AD se, em momentos decisivos e com impacto social importante, escolhe entendimentos que tornam indistintas as fronteiras entre a política do Governo e da oposição? O problema não é dialogar. Em democracia, o diálogo é necessário. O problema surge quando o diálogo é a alternativa em si, sem que uma proposta diferenciadora se afirme. E se calhar é isso mesmo que está em causa. Será que o PS ainda pode ser alternativa se almeja uma espécie de bloco central que quer prolongar para além de novas eleições?

Ao agir desta forma, José Luís Carneiro arrisca colocar o PS numa posição politicamente secundária: a do partido como solução de recurso, disponível para assegurar estabilidade quando o PSD não conseguir entendimentos com o Chega.

Esta inquietação foi expressa de forma clara na última Comissão Nacional do PS, quando uma moção crítica à orientação política da direção foi aprovada por 78% dos delegados. A mensagem foi inequívoca: um PS demasiado instalado na moderação estratégica, colado à ideia do Centrão e incapaz de construir uma oposição mobilizadora. Mas para quê?

Fazer da política de oposição uma sucessão de cartas enviadas ao Governo dificilmente entusiasma alguém. Tem um certo sabor ao romantismo do século passado. E, quando as cartas nem sequer obtêm resposta, insistir em apresentá-las como prova de eficácia política torna-se um exercício de mera autojustificação.

Se o Governo está hoje politicamente fragilizado, não é porque enfrente uma oposição particularmente assertiva. Está fragilizado pelos seus próprios erros: pela incapacidade de responder eficazmente às tempestades que afetaram milhares de pessoas, pela gestão desastrosa do pacote laboral, pela confusão criada em torno da PSU e por uma sucessão de decisões mal preparadas e pior explicadas.

Os portugueses procuram uma alternativa, não um parceiro de retaguarda do Governo. Procuram um projeto político capaz de disputar o poder, sem ter vergonha de ser de esquerda, que pense fora dos cânones habituais, que seja arrojado, com propostas claras e inovadoras que abram novos horizontes e, sobretudo, transformadoras da condição de vida da maioria da população. Espaço para isso parece não faltar.

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