Há uns anos, esperar era apenas esperar. Aguardar pela nossa vez. Agora, qualquer perspetiva de espera é uma potencial dor de cabeça, com uma carga mais negativa, e com a tendência automática de preencher esse tempo. O telemóvel acompanha-nos na fila do supermercado, no elevador, na sala de espera, no transporte público, a minutos de reuniões.A pergunta que surge é: quem matou o tédio? A resposta não é simples, não foi uma pessoa, não foi a tecnologia, nem a Inteligência Artificial. Foi uma cultura que passou a valorizar a ocupação permanente, a conexão total, o medo de estar sem fazer nada.O tédio naturalmente é visto como algo negativo, associado à falta de produtividade, de entusiasmo, de motivação e de energia. No entanto, estes momentos em que estamos simplesmente connosco, com pouco estímulo, são essenciais. O nosso cérebro continua a trabalhar, mesmo quando parecemos desligados. Durante esses períodos consolidamos experiências, organizamos pensamentos, criamos soluções, regulamos emoções e damos espaço à criatividade.Atualmente temos muita tendência a diminuir este tempo também nas crianças e jovens, com medo que se aborreçam e entramos no polo oposto. Dezenas de brinquedos que estimulam pouco a descoberta e a criatividade, pouco tempo livre e imensas atividades.Nas organizações também encontramos este fenómeno. Existe pouco espaço para pensar, para testar, para organizar ideias. As agendas estão constantemente cheias, com reuniões consecutivas, notificações constantes e pedidos de resposta imediata. A disponibilidade é permanente, inclusive com pouco tempo para necessidades básicas, como pausas para comer.Nas organizações não existe praticamente espaço entre tarefas, mesmo que implique uma mudança de tema, de recursos utilizados. E as consequências já se começam a notar, maior fadiga mental, maior dificuldade no pensamento estratégico, na capacidade de concentração e menor criatividade.Na verdade, o que precisamos é de recuperar o direito a simplesmente existir. Não necessitamos apenas de descansar do trabalho ou da escola, precisamos de recuperar a capacidade de não preencher todos os momentos. Precisamos de tempo que não tenha um objetivo definido. Precisamos de guardar tempo que não tenha de servir para nada.Esta ideia desafia a lógica atual de otimização constante, onde até o tempo de descanso tem métricas: ouvir um podcast, ler dois livros, aprender sobre algo e ver uma série. É fulcral dar-nos tempo para simplesmente existir e não ter medo de dar esse tempo às crianças.Um luxo dos nossos dias é ter minutos que não precisem de ser produtivos, registados ou partilhados, porque nestes tempos mortos recuperamos a possibilidade de pensar, criar, decidir. O aparente desligar do cérebro é dar-lhe espaço para criar. Quando o conseguirmos fazer ganhamos todos: pessoas, organizações e sociedade.