Quanto valem a reflexão e a calma?

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Na semana que passou, Portugal viveu uma série de episódios que não devia ter vivido, e que culminaram com acusações mútuas entre manifestantes e forças policiais de incumprimento dos respetivos deveres. As imagens (e as autoridades) ainda não esclareceram o que realmente aconteceu - os relatos, esses, sucedem-se e parecem indicar que pode ter havido desproporcionalidade das forças de segurança - e estão em curso as investigações devidas para que tudo seja, finalmente, clarificado e endereçado da forma que tem de ser.

Ontem de manhã, António José Seguro falou pela primeira vez ao país sobre as acampadas e manifestações que culminaram nestes episódios de violência. O Presidente da República esperou cerca de 48 horas para se manifestar publicamente sobre o que considera que “não são imagens normais para uma democracia consolidada”, já depois de ter reunido com Luís Montenegro para falar sobre o assunto, no dia anterior.

No entretanto, a internet encheu-se de memes sobre o silêncio de Seguro, os comentadores de televisão pediram repetidamente que o Presidente viesse falar e o país, por momentos, até parece ter-se esquecido que o assunto em causa é a crise da habitação e um eventual incumprimento das regras por parte de manifestantes e forças de segurança.

António José Seguro é um presidente muito diferente daquele que foi Marcelo Rebelo de Sousa. Era algo que já se adivinhava ainda durante a campanha presidencial, e que não surpreende tendo em conta aquilo que foi a sua atuação enquanto líder do Partido Socialista. Seguro é uma figura mais calada, que geralmente escolhe o silêncio quando não tem a certeza de que o que vai dizer vá acrescentar algo de positivo à discussão, e que não parece ceder à pressão da reação rápida que, nos últimos anos, tem sido pedida não apenas aos governantes, mas a praticamente todas as pessoas. A ilusão de que estamos todos ligados 24 horas por dia, sete dias por semana, alimentada por sites atualizados ao minuto e pelas redes sociais que nos invadem cada momento do dia, também nos faz sentir que 48 horas é muito tempo. Mas será mesmo?

Seguro garantiu, também, que “desde as sete da manhã desse domingo tenho estado sempre, sempre atento, preocupado, a recolher a informação, a exigir as informações de quem devo”, tal como o DN noticiou. E se é certo que o Presidente da República acrescentou pouco ao que já se sabia sobre o que aconteceu nas acampadas, que motivaram a abertura de um inquérito para esclarecer o que terá acontecido, sobretudo na madrugada de domingo passado, que terminou com mais de 30 feridos e 31 detidos, também é certo que pouco mais se pode dizer numa altura em que ainda é mais o que se desconhece dos que os factos comprovados.

Não é por acaso que, em Portugal, há um ditado que diz que “o silêncio é de ouro, a palavra é de prata”. Numa altura em que o mundo é só ruído, em que parece que toda a gente tem algo a dizer sobre qualquer assunto, em que os líderes se desdobram em declarações nas televisões ou nas redes sociais, o silêncio e as pausas para se pensar são, demasiadas vezes, tidas como sinal de fragilidade e até de incompetência.

“Ele sabia o momento psicológico exato para não dizer nada”, escreve, a dada altura, Oscar Wilde no seu afamado Retrato de Dorian Gray. E se pensarmos todos mais como ele? Que lição retiramos da serenidade e da ausência de palavra?

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