Quando sonhas, sonha em grande

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

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Quando o célebre maestro alemão Christoph Poppen descobriu a vila medieval de Marvão, no topo de uma colina do Alentejo, em 2010, durante um passeio de bicicleta, ninguém poderia imaginar que um dia transformaria o local num dos espaços mais distintos da Europa para a realização de um festival de música clássica.

Em julho, o festival atraiu mais de 10.000 pessoas no seu 12.º aniversário.

Quando não há música, o silêncio toma conta de Marvão. Foi precisamente isso que inspirou Poppen e a sua mulher, a soprano Juliane Banse, a acrescentar música a esse silêncio, depois de passarem algum tempo na sua segunda casa, na vila de apenas cerca de 100 habitantes durante todo o ano.

Quando não há música, o silêncio toma conta de Marvão. Foi precisamente isso que inspirou Poppen e a sua mulher, a soprano Juliane Banse, a acrescentar música a esse silêncio (...)."
Quando não há música, o silêncio toma conta de Marvão. Foi precisamente isso que inspirou Poppen e a sua mulher, a soprano Juliane Banse, a acrescentar música a esse silêncio (...)." FOTO: Direitos Reservados

Para Poppen, o espaço não era um problema na minúscula vila. Os músicos, na sua maioria internacionais, atuam num antigo anfiteatro romano, em igrejas e até no reservatório subterrâneo de água.

Um dos pontos altos dos concertos noturnos acontece nas ruínas romanas do século I de Ammaia, sob as estrelas resplandecentes.

O Presidente António José Seguro seguiu a tradição do seu antecessor Marcelo Rebelo de Sousa e assistiu ao concerto de Ammaia, que apresentou em estreia o impressionante concerto da jovem compositora chinesa Alice Yeung para harmónica cromática, piano jazz e orquestra. Entre os que afluíram ao evento estavam também embaixadores estrangeiros em Lisboa.

O festival é um sonho tornado realidade para o casal.

Agora, o casal tem outro sonho, e um sonho muito maior.

Poppen diz que a razão pela qual o festival é realizado todos os anos no final de julho é porque estão condicionados pelo clima, para evitar a chuva. “Queremos tocar durante todo o ano e atrair públicos ainda maiores.”

Está a ponderar um projeto para construir um auditório que possa acolher concertos e conferências ao longo de todo o ano, criando também um espaço para as artes visuais.

O sonho é partilhado pelo premiado e conceituado arquiteto Manuel Aires Mateus.

“Já fiz alguns esboços”, disse-me Mateus entusiasmado. “Será construído com as mesmas pedras das muralhas da cidade e será concebido como um projeto intemporal, tirando partido da fantástica vista sobre a paisagem.”

O seu plano é construir um auditório com 550 lugares, com as dimensões adequadas para criar uma acústica perfeita, e incluir também um percurso pedonal pela natureza, com um museu integrado para acolher exposições temporárias. A Gulbenkian já demonstrou interesse em fazer parte do museu e juntar-se aos concertos com a sua sinfonia.

A autarquia já disponibilizou o terreno para o projeto, suficientemente grande para acolher um edifício de 2000 metros quadrados.

Fica no sopé da vila, junto à Igreja da Nossa Senhora da Estrela, que remonta a 1488. “É uma área fantástica”, diz Poppen.

O custo estimado do projeto é de 50 milhões de euros.

Quando pensamos nisso, não é assim tanto dinheiro para um projeto que poderia transformar a paisagem cultural da região.

“O valor do projeto já está lá com o festival. Já é um sucesso comprovado”, afirmou Mateus.

“Podemos fazer por Marvão aquilo que o Museu Guggenheim fez por Bilbau e colocá-lo no mapa, combinando artes visuais e música”, disse Poppen.

Poppen está a tentar todas as vias: investimento privado, financiamento público e fundos europeus.

Se o financiamento for conseguido, a construção demoraria quatro anos.

Quem sabe, até lá, quando Portugal estiver a acolher o Campeonato do Mundo de 2030, um majestoso centro de artes, a uma curta distância de carro da fronteira espanhola, possa colocar mais uma coroa neste país..

zredmont351@yahoo.com

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