Os liberais e neoliberais que repetitivamente nos vendem as patranhas do mercado livre e da União Europeia (UE) como construção baseada em Estados e povos tidos como iguais vêm agora dizer-nos que afinal o mercado não pode funcionar livremente e que há uns mais iguais que os outros quando se trata de proteger o aço alemão.Na verdade, na verdade, não nos dizem nada disso porque não têm coragem de o dizer mas o caso é claro.O assunto em causa é o aço.Há neste momento preocupação com a importação de aço vindo da China a preços mais baixos do que aquele que é produzido no espaço da UE.Identifica-se o risco de a concorrência livre destruir capacidade produtiva do setor siderúrgico de vários estados-membros.Face àquele risco propõem-se medidas proteccionistas do “aço europeu”, incluindo a aplicação de taxas alfandegárias ou a obrigatoriedade de aquisição de aço dentro da UE para substituir a importação de países terceiros.A Alemanha detém 30% da produção do aço na UE, a Itália outros 27%.Não o dizendo, liberais e neoliberais assumem, afinal, que nem sempre estão dispostos a deixar funcionar livremente o mercado. Quando há grandes grupos económicos/grandes potências envolvidos(as), o poder desses grupos/potências legitima a criação de distorções ao livre funcionamento de mercado à medida da necessidade da sua protecção.Mas apenas quando há grandes grupos económicos ou grandes potências envolvidos(as). Se se tratar de empresas ou Estados de menor dimensão, o caso já não é esse.Quando estão em causa sectores industriais de países como Portugal nunca há espaço para medidas de protecção. Se estiver em causa a produção industrial portuguesa em sectores como têxtil, automóvel, cerâmico, vidreiro ou de material elétrico, por exemplo, vale o mercado livre e a globalização. Se a consequência for a destruição da capacidade produtiva portuguesa, paciência.De resto, foi assim que a UE e sucessivos governos nacionais, orientados (ambos) pelas concepções liberais e neoliberais, conduziram Portugal à situação de desindustrialização de que hoje sofremos.Ao contrário, quando estão em causa os interesses dos grupos económicos da siderurgia alemã, aqui d’el rei, já não pode ser. E lá aparecem então as distorções do mercado livre para evitar a destruição da capacidade produtiva e proteger os sectores produtivos.A este primeiro “enferrujamento” do neoliberalismo acrescenta-se outro. É que para proteger a siderurgia alemã está-se a desproteger a indústria transformadora.Quem for obrigado a comprar à Alemanha o aço mais caro do que compra hoje a outros fornecedores verá aumentar os seus custos de produção. A consequência é o aumento de preços em cadeia ou problemas de escoamento da produção.Esse preço será tão mais pesado quanto mais difíceis forem, já hoje, as condições para a produção industrial em cada país.Não é difícil antever consequências negativas para Portugal. Mas certo, certo é que os mercados quando nascem não são para todos…