Ciclicamente, há uma conta que chega semanalmente a milhões de portugueses. Não vem em papel, nem por e-mail. Está no quadradinho da bomba de gasolina.
Mas esta não é apenas a história do preço dos combustíveis. É a realidade de um país onde o custo de viver aumenta mais depressa do que a capacidade de viver.
E há uma pergunta que se tornou brutalmente simples: quantas famílias conseguem fazer caber um mês inteiro num salário que mal chega para três semanas?
É neste país real que aumenta o preço dos combustíveis. Quem precisa do carro para trabalhar, levar os filhos à escola, ir ao médico ou simplesmente vive num território onde os transportes públicos não respondem, não tem escolha. Abastece. Paga. E corta noutra despesa.
Depois, o aumento traduz-se em toda a cadeia de produção: produzir custa mais, transportar custa mais, distribuir custa mais. Comprar custa mais.
Dizem-nos que é o mercado. Que o petróleo subiu. Que há guerras, especulação. Tudo isso é verdade. Mas é apenas uma parte da verdade.
A outra é esta: quando os preços sobem, há empresas que lucram. E lucram muito.
Em 2025, a Galp registou 1,15 mil milhões de euros de lucro líquido ajustado, enquanto a Repsol alcançou 2,568 mil milhões. Perante isto, qual é a resposta do Governo? Baixar impostos.
À primeira vista parece ser a solução. Na verdade, é apenas um penso rápido numa ferida estrutural. O Estado abdica de receita, o consumidor ganha alguns cêntimos e, quando o mercado volta a subir, a redução fiscal é engolida pelo preço. Perde o Estado, paga o consumidor, preservam-se as margens de lucro especulativo.
É esta a lógica neoliberal: privatizar os lucros, socializar os custos.
Pensemos numa alternativa: uma política que não se limite a compensar os efeitos, sempre atrás do prejuízo, mas que intervenha nas causas. Que regule efetivamente a formação dos preços dos combustíveis, obrigue à transparência das margens de lucro, controle os preços e, assim, impeça a voragem especulativa. Que tribute lucros extraordinários quando existem e canalize essa receita para aliviar diretamente as famílias.
Combater o custo de vida não é apenas baixar um imposto durante algumas semanas. É aumentar salários, proteger rendimentos, garantir serviços públicos e impedir que bens essenciais sejam tratados apenas como oportunidades de negócio.
É redistribuir riqueza. É regular o mercado. É recuperar para o Estado a capacidade de decidir onde deve estar o dinheiro público e a quem deve servir a economia.
Baixar impostos pode aliviar a dor hoje. Mas não muda as regras do jogo.
A verdadeira coragem política é assumir que a economia não pode continuar organizada em função da rentabilidade de poucos, enquanto milhões fazem contas para chegar ao fim do mês.
Há uma escolha a fazer. Entre um Estado que baixa impostos para compensar preços que outros decidem e um Estado que intervém para garantir que ninguém fica para trás.
Entre uma economia onde o lucro é senhor e uma economia ao serviço das pessoas.