Hoje o calor tornou-se um risco económico com impacto direto na produtividade, nos custos das empresas e na inflação. Numa Europa cada vez mais exposta a ondas de calor prolongadas, a questão já não é saber se as alterações climáticas afetam o PIB, mas sim quanto custam, quem paga a fatura e, acima de tudo, o que podemos fazer para ficarmos mais resiliente a estes impactos no presente e no futuro.
De acordo com a Triodos Bank, no artigo Hot Summer Economics, o verão extremo de 2026 poderá reduzir o PIB da União Europeia em cerca de 1%, um impacto suficiente para praticamente anular o crescimento económico esperado para o ano. Tal deve-se à redução da produção agrícola e aumento dos preços dos alimentos; à pressão sobre os sistemas energéticos e subida dos preços da eletricidade; perturbações nos transportes e cadeias logísticas e diminuição da produtividade laboral.
À medida que as temperaturas sobem, os trabalhadores tornam-se menos produtivos. O calor afeta o sono, a concentração, a capacidade cognitiva e a tomada de decisão. Certos trabalhos não podem ser feitos na rua às horas de maior calor. Segundo o estudo Too Hot to Grow da Allianz, existe um ponto crítico próximo dos 30 graus centígrados, a partir do qual as perdas de produtividade aumentam significativamente.
No Reino Unido, segundo o Grantham Research Institute da London School of Economics, a onda de calor de junho de 2026 provocou a perda de 24 milhões de horas de trabalho e um impacto económico superior a 1,15 mil milhões de libras. Cerca de 1,25 milhões de trabalhadores não trabalharam durante esse período devido às temperaturas extremas. O estudo concluiu também que 87% dos trabalhadores reportaram impactos negativos relacionados com o calor, incluindo perturbações do sono, fadiga e diminuição do desempenho laboral.
Os impactos acumulados são ainda mais expressivos. Segundo a Verdant Thinking, as sucessivas ondas de calor registadas entre maio e julho de 2026 já terão custado pelo menos 4,4 mil milhões de libras à economia britânica. Mais preocupante ainda, caso a intensidade destes fenómenos continue a aumentar, os prejuízos anuais poderão atingir cerca de 25,6 mil milhões de libras até 2030.
Menor produtividade significa menor criação de riqueza, aumento da inflação, redução do poder de compra das famílias e agravamento das desigualdades sociais.
O impacto na saúde, na mortalidade, nos incêndios florestais, nos recursos hídricos e na biodiversidade continua subavaliado pelas métricas económicas tradicionais. Como refere a Triodos, aquilo que hoje observamos não deve ser encarado como uma anomalia passageira, mas como um sinal do que poderá tornar-se cada vez mais frequente num planeta em aquecimento.
Perante este cenário, a adaptação climática deixa de ser apenas uma política ambiental. Investir em cidades mais verdes, edifícios mais preparados para o calor, eficiência energética, soluções baseadas na natureza e proteção dos trabalhadores é também uma política económica. É uma forma de proteger a produtividade, a competitividade e o rendimento das famílias.
Durante décadas discutimos o custo da ação climática. Hoje torna-se cada vez mais evidente que o verdadeiro custo está na inação. O calor extremo já não é apenas uma variável meteorológica. É uma variável económica que impacta a produtividade e o crescimento das economias. É pena que, em Portugal, ainda existam pessoas que afirmam que este tema não é relevante nem para a economia, nem para as finanças deste país.