“Quando eu quiser…”

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Andava o mundo angustiado com guerras e crises várias, com discussões sobre a vinculatividade do Direito Internacional, quando sobre Portugal se abateram, qual sinal dos tempos, várias tempestades.

Ainda as comissões nomeadas para estudar os fogos de verão não teriam concluído nada de muito relevante e somos assolados por invernosas tempestades homéricas. À floresta ardida sucedem-se casas destruídas ou danificadas, parece que mais de 200.000, vias de comunicação inutilizadas, fábricas sem condições para a laborar, as florestas que não arderam no verão, são agora arrancadas, e muita gente a ficar mais pobre do que infelizmente já era e sempre foi.

Por outro lado, fragilidades várias e nunca explicadas, veja-se o apagão ibérico ou o recente tempo de espera pelo restabelecimento do abastecimento de eletricidade - que não de luz, como muitos repetiram até à inconsciência -, fragilidades várias, dizia, assaltam e atormentam o nosso quotidiano.

Estávamos na doce ilusão de que a tranquilidade regressaria quando o Presidente dos EUA teve uma iluminação e descobriu duas ditaduras neste nosso mundo. A ditadura da Venezuela que, exfiltrado o ditador, deixou de o ser. A principal cúmplice do exfiltrado está já reconhecida como interlocutora legítima da democracia que terá sido instalada num estalar de dedos. E, agora, a ditadura iraniana que, a fazer fé nos manuais de História, existirá desde 1979. A atual, porque antes desta existia outra.

E assim vemos as nossas condições de vida a mergulharem na incerteza. Aumento do preço do petróleo e do gás, inflação com risco de escalada, os mercados de capitais com instabilidade e imprevisibilidade acentuadas.

Andava o mundo neste rebuliço de incerteza quando Portugal, país que, como se sabe, está imune a todas as crises e incertezas, assiste a uma epifania que se vai revelando por episódios e num tour pelo país.

Saído do seu remanso da última década um ex-primeiro-ministro resolveu vir indicar o caminho ao atual, num modelo de primeiro-ministro sombra que a ciência politica virá certamente a estudar.

Assertivamente disse-lhe “que era tempo de se concentrar nas suas funções e responsabilidades”. Fixou-lhe objetivos para o mandato, esperando “que dê conta do recado” e que “possa ir ao encontro de uma mudança”.

E, por fim, recomendou-lhe que “não se distraísse”.

Para reforçar a estabilidade política de que o país tanto precisa, concluiu: “Quando eu quiser candidatar-me, candidato-me e assumo que me vou candidatar.”

Já todos tínhamos percebido que uma certa direita vivia insatisfeita com a solução política atual e tem como objetivo reorganizar esse espaço político, isto é, juntar no mesmo projeto todos os que votam à direita do PS.

Também se tornou evidente que mais importante que o país e o momento difícil que vive, é um projeto de destruição do Estado Social e dos equilíbrios em que a nossa democracia se funda e com os quais foi construída.

Fica também claro que a deriva ideológica que suporta a progressão de partidos antissistema tem suporte nalguns que fazem e fizeram as suas carreiras políticas dentro desse sistema e com as suas regras.

Acontece, a meu ver, que não estamos em tempos do taticismo implícito no “Quando eu quiser...”

Portugal exige clareza e os portugueses precisam de estabilidade.

Como disse o Dr. Mário Soares, “Um político assume-se”.

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