Como já se deve ter dado conta, caro leitor, a menos que tenha ficado enclausurado numa qualquer providencial cápsula do tempo, vivemos em plena era da polarização, na qual parece que concordamos apenas em discordar uns dos outros – e da forma mais rude possível. Já não basta ser de esquerda ou de direita; multiplicam-se os rótulos e as trincheiras: “comuna” ou “facho”, “xenófobo” ou “woke”, “comigo” ou “contra mim”. A diferença de opinião passou a ser uma ameaça identitária, transformando o adversário em inimigo.Não foi por acaso que o Papa Leão XIV escolheu este tema para o primeiro dia da sua visita a Espanha, um dos países europeus mais marcados pela crispação política dos últimos anos. O líder da Igreja Católica alertou para a “tentação de ganhar popularidade alimentando o fogo da polarização” e apelou à reconciliação entre diferentes forças políticas e sociais, demonstrando – tal como já o fizera com a encíclica Humanas Dignitas, dedicada aos desafios éticos da Inteligência Artificial – estar bem consciente dos grandes problemas do nosso tempo.A erosão da nossa capacidade de convivermos com quem pensa ou age de forma diferente, a falta de empatia com o outro, é um processo em curso acelerado que ameaça perigosamente a democracia. Um estudo recente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e do ISCTE, divulgado pelo Expresso, revelou que um em cada quatro portugueses afirma detestar pessoas com ideias políticas opostas às suas, num fenómeno designado como polarização afetiva. Conforme explica o investigador Frederico Ferreira da Silva, “é uma lógica de nós versus eles” que alimenta estereótipos, preconceitos e emoções negativas, num ciclo amplificado pelo universo das redes sociais.Basta olhar, de resto, para os comentários no Instagram em reação à notícia. Entre frases como “eu só detesto pobre de direita”, “retardado mental de esquerda que ainda acredita em socialismo em 2026” ou “bandidagem do Chega”, não faltam exemplos quase pavlovianos dessa polarização afetiva em curso. E as consequências são visíveis no quotidiano. Há quem bloqueie amigos nas redes sociais por divergências políticas, quem evite convidar “aquele” tio para o almoço de família ou quem fuja de conversas no trabalho para não descobrir em quem vota o colega do lado. O debate político está a tornar-se cada vez mais identitário e menos racional. Se antes era possível concordar sobre os factos e divergir nas leituras sobre eles, hoje discorda-se dos próprios factos.As redes sociais, o populismo e os algoritmos que recompensam a indignação ajudam a explicar este fenómeno, sobretudo entre os mais jovens, cuja construção política ocorre cada vez mais em ambientes digitais extremados.Este é, provavelmente, o debate mais urgente que temos pela frente. Como podemos recuperar a capacidade de ouvir, de discordar sem odiar, de distinguir pessoas de ideias? A democracia não exige unanimidade, apenas que reconheçamos legitimidade a quem pensa de forma diferente.