As imagens que continuam a chegar da Venezuela são devastadoras. O sofrimento provocado pelos violentos sismos, que já fizeram milhares de vítimas mortais, provocaram dezenas de milhares de feridos e deixaram um rasto de destruição sem precedentes, merece, antes de mais, uma palavra de profundo pesar e solidariedade para com todas as famílias atingidas. Entre elas, contam-se dezenas de portugueses e lusodescendentes que perderam a vida, bem como muitos outros que continuam desaparecidos ou que viram desaparecer, em poucos segundos, uma vida inteira de trabalho e de sacrifício.Portugal mantém há décadas uma forte ligação humana, cultural e afetiva com a Venezuela. Ali vive uma das maiores comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, construída por gerações de emigrantes que partiram em busca de melhores oportunidades, mas que nunca deixaram de manter viva a ligação ao seu país de origem. É precisamente nestes momentos que essa ligação deve deixar de ser apenas simbólica para se traduzir em apoio efetivo.A dimensão da tragédia torna-se ainda mais preocupante perante os relatos que continuam a surgir no terreno. Crescem as queixas da população quanto à insuficiência da resposta das autoridades venezuelanas e chegaram mesmo a ser denunciados casos de alegadas pilhagens de habitações por elementos das forças policiais. Quando uma catástrofe natural é acompanhada pelo colapso da ordem pública e pela incapacidade de proteger quem já perdeu tudo, o sofrimento das populações torna-se ainda mais dramático.A diáspora portuguesa merece sentir que Portugal não esquece os seus. Os portugueses que vivem além-fronteiras continuam a ser parte integrante da nossa identidade nacional, contribuindo diariamente para afirmar o nome de Portugal no mundo. Quando enfrentam uma tragédia desta dimensão, têm o direito de esperar uma resposta firme, coordenada e solidária por parte do Estado português.É, por isso, essencial garantir todo o apoio consular, logístico e humanitário necessário às famílias afetadas. O decreto de um dia de luto nacional constitui um gesto de respeito para com todas as vítimas, em especial para os cidadãos portugueses e lusodescendentes que perderam a vida. Contudo, o simbolismo deve ser acompanhado por medidas concretas. Muitas pessoas perderam as suas casas, a família, os seus negócios e os seus meios de subsistência. Algumas poderão não reunir condições para permanecer na Venezuela e desejarão regressar a Portugal para recomeçar as suas vidas.Nessas circunstâncias, o Estado Português deve estar preparado para apoiar esse eventual regresso, assegurando mecanismos que facilitem o acolhimento, a integração e a reconstrução de uma vida com dignidade. Não se trata apenas de uma obrigação institucional; trata-se de um dever moral para com cidadãos portugueses que nunca deixaram de fazer parte da nossa comunidade nacional.Também é importante reconhecer todas as iniciativas solidárias que têm surgido para apoiar as vítimas, como as dos deputados do Chega, que irão doar parte do respetivo vencimento para apoiar diretamente as vítimas e a comunidade luso-venezuelana afetada. Porque a solidariedade demonstra-se, acima de tudo, através de ações concretas.Perante uma tragédia desta dimensão, Portugal deve igualmente mobilizar todos os instrumentos diplomáticos ao seu alcance para reforçar a cooperação internacional e contribuir para uma resposta rápida e eficaz. A dimensão humana desta catástrofe exige uma mobilização que ultrapassa fronteiras e que envolva os parceiros europeus e as organizações internacionais.Os sismos recordam-nos da forma mais cruel como a vida pode mudar em poucos instantes. Mas recordam-nos também que a verdadeira força de um país mede-se pela forma como cuida dos seus cidadãos, estejam eles onde estiverem. A comunidade portuguesa na Venezuela não pode sentir-se abandonada. Hoje, mais do que nunca, precisa de saber que Portugal continua presente, solidário e disponível para a apoiar, seja na reconstrução da sua vida naquele país, seja no regresso à sua terra de origem.Porque quando a terra treme, o dever de um país é permanecer firme ao lado dos seus.Economista e deputado à Assembleia da República pelo Chega============2024 - OPIN