Há imagens que nos obrigam a repensar certezas. Uma delas é a de uma torneira sem água, num verão que sucedeu a um inverno de chuva abundante. Durante décadas habituámo-nos a associar a escassez hídrica à ausência de precipitação, às barragens vazias e aos longos períodos de seca. No entanto, recentemente, a realidade demonstrou que o problema pode ser outro: a água existe, mas nem sempre consegue chegar a quem dela precisa.
Esta distinção é mais importante do que parece. Uma coisa é a falta do recurso. Outra, bem diferente, é a incapacidade de o distribuir de forma eficiente e fiável. Quando, em pleno verão, milhares de pessoas e empresas enfrentam interrupções no abastecimento, não estamos apenas perante uma consequência das condições climáticas. Estamos também perante um sinal das fragilidades acumuladas ao longo de anos em infraestruturas cuja manutenção e renovação nem sempre acompanharam as necessidades do território.
As redes de abastecimento são uma das mais discretas conquistas da sociedade moderna. Enterradas sob as ruas, raramente captam a atenção pública. Só nos lembramos delas quando falham. Mas é precisamente nesses momentos que percebemos quão essenciais são. A água não é apenas um recurso natural; é uma condição básica de funcionamento das comunidades, das empresas e da própria economia.
Nos setores da restauração e do alojamento turístico, essa realidade é particularmente evidente. Sem água não há refeições para servir, não há condições de higiene e segurança alimentar, não há quartos para preparar, nem clientes para receber. Aquilo que para muitos representa um incómodo temporário transforma-se, para milhares de empresas, numa paralisação total da atividade. E quando tal acontece nos meses de maior procura turística, o impacto ultrapassa largamente o prejuízo imediato de um negócio.
As consequências espalham-se por toda a economia local. São afetados os produtores que abastecem restaurantes, os fornecedores, os trabalhadores e o comércio que depende da dinâmica gerada pelos visitantes. Perde o destino, perde a comunidade e perde também a confiança de quem nos escolhe para passar férias ou realizar negócios. O visitante dificilmente distingue se a responsabilidade pertence ou não à empresa. Guarda apenas a experiência de um serviço essencial que falhou.
Numa altura em que Portugal se afirma internacionalmente pela qualidade da sua oferta turística, importa compreender que a competitividade de um destino não depende apenas da beleza da paisagem, da excelência da gastronomia ou da simpatia de quem recebe. Depende igualmente da fiabilidade dos serviços que sustentam essa experiência. A hospitalidade não se mede apenas pelo acolhimento; mede-se também pela capacidade de garantir aquilo que os visitantes consideram adquirido.
Por isso, o debate sobre a água já não pode limitar-se às questões ambientais, por mais relevantes que elas sejam. A gestão da água é também uma questão de competitividade económica, de qualidade de vida, de coesão territorial e de confiança nas instituições. É legítimo discutir novas soluções de captação, armazenamento ou reutilização. Mas é igualmente indispensável olhar para as infraestruturas que transportam a água e garantir que estas acompanham as exigências do presente e do futuro.
Talvez o maior paradoxo do nosso tempo seja este: não vivemos apenas perante o risco da escassez. Vivemos também perante o risco do desperdício e da ineficiência. E um país que perde água antes de a entregar aos seus cidadãos não enfrenta apenas um problema de gestão de recursos. Enfrenta uma questão de desenvolvimento, de confiança e de futuro. Porque, no fim, a verdadeira abundância não se mede pela água que existe. Mede-se pela água que chega, quando e onde é necessária.