Quando a fé substitui a evidência na emergência médica

Paulo Paço

Presidente do conselho diretivo da Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica

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Defender um modelo é legítimo. Afirmar a sua superioridade sem dados que a demonstrem não é.

Há uma pergunta que deveria ser obrigatória em qualquer debate sério sobre emergência médica: onde estão os dados que provam que este modelo funciona melhor?

A discussão sobre um modelo de emergência médica baseado na presença de médicos parece, por vezes, começar pela conclusão e só depois procurar argumentos que a sustentem. A questão não é saber se os médicos são importantes – obviamente que são. A questão é saber se a sua presença, enquanto opção estrutural de um modelo, produz efetivamente melhores resultados para os doentes.

Se a resposta é sim, então deve ser possível demonstrá-la. Estudos comparativos, resultados clínicos, tempos de resposta, mortalidade, morbilidade, capacidade de resolução, segurança, eficiência e impacto nos doentes são alguns dos indicadores que deveriam sustentar essa afirmação.

Dizer que um modelo “é melhor” não o torna melhor. Repeti-lo numa conferência, num comunicado ou numa entrevista também não. Invocar a experiência ou a autoridade de profissionais respeitados pode ser relevante, mas não substitui a evidência científica. E dizer que “sempre foi assim” é uma explicação histórica, não uma demonstração de eficácia.

A ciência tem uma característica incómoda: obriga a medir. E medir significa aceitar que os resultados podem confirmar as nossas convicções – ou contradizê-las.

É perfeitamente legítimo defender a presença de médicos na emergência. O que não é legítimo é confundir a competência dos profissionais com a eficácia do modelo organizacional. Um médico competente não transforma automaticamente o modelo em que trabalha num modelo superior.

Ninguém aceitaria, na medicina clínica, que um tratamento fosse considerado melhor apenas porque parece intuitivamente mais adequado, sem avaliar resultados, riscos e alternativas. Não há razão para exigir menos rigor quando se decide como organizar os serviços que prestam esses cuidados.

Por isso, a pergunta deve ser feita de forma simples e direta a quem afirma a superioridade deste modelo: que estudos comparativos demonstram essa superioridade?

Se existem, que sejam apresentados. Se são robustos, que sejam escrutinados. Se os resultados são convincentes, que sejam conhecidos.

Se não existem, então a resposta cientificamente honesta é igualmente simples: não sabemos.

E não saber não é uma fraqueza. É precisamente o ponto de partida da ciência. O problema começa quando a ausência de evidência é transformada em certeza e uma preferência passa a ser apresentada como facto.

A autoridade não é evidência. A tradição não é evidência. A convicção não é evidência.

Se os dados demonstrarem que o modelo baseado em médicos produz melhores resultados, devemos defendê-lo. Se não o demonstrarem, devemos ter a coragem de reconhecer essa incerteza e avaliar alternativas.

O que não podemos fazer é decidir primeiro, declarar depois e esperar que a ciência encontre, a posteriori, uma justificação para a decisão.

Isso não é política de saúde baseada em evidência. É uma opinião à procura de estatuto científico.

E, quando falamos de emergência médica, onde decisões tomadas em minutos podem determinar consequências para toda uma vida, essa complacência deveria ser simplesmente inaceitável.

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