Há coisas importantes a acontecer na Europa e no mundo, além das planeadas malfeitorias dos já famosos terroristas neo-nazis dos 157 alvos, em solo pátrio, dos desmandos de outros agentes transnacionais do mal, como Donald Trump, e das alterações climáticas trazidas pelo Verão. Coisas que, vá-se lá a saber porquê, não passam nas nossas televisões, nem vêm nos nossos jornais – como, por exemplo, o facto de os fuzileiros norte-americanos terem sido recebidos como salvadores quando agora “invadiram” Caracas para prestar assistência aos venezuelanos, vítimas da tragédia sísmica e da depauperação chavista.Ao contrário, Andy Burnham – que, ao que tudo indica, será o futuro líder dos Trabalhistas e, nessa qualidade, futuro primeiro-ministro do governo de Sua Majestade – foi aqui notícia. Notícia em jeito de boa-nova porque, para considerável alívio e júbilo dos media e do comentariado oficial, o provável futuro inquilino do n.º 10 de Downing Street prometia ser “mais à esquerda que Stamer”.Ora, quem ouviu o discurso de vitória de Burnham em Makerfield – “Reindustrialização do norte de Inglaterra”? “Ingleses decentes”? – diria estar perante um qualquer líder de hiper-extrema-direita-radical, um desses populistas básicos que não percebe a divisão do trabalho internacional e as vantagens da deslocalização das empresas para as periferias de mão-de-obra barata.Mas não, era mesmo Burnham, o presidente da Câmara de Manchester mais esquerdista que Stamer. Fui procurar, e no Guardian de sábado, 27 de Junho, encontrei a referência a um discurso de Burnham de Maio de 2025: “A ameaça do Reform [o partido nacionalista popular de Neil Farage que as sondagens colocam no topo dos vencedores de próximas eleições] significa que a esquerda tem agora de fazer mudanças que deveríamos ter feito há muitos anos... alguma coisa de novo tem de acontecer...”, dizia ele.Pois é. E foi a partir daí, e dado o avolumar de problemas e escândalos ligados a Starmer e à sua equipa, que um lobby pró-Burnham se pôs a trabalhar activamente no interior do Labour e através do think-tank Compass (que se descreve, com eficaz banalidade, como “um guarda-chuva reunindo a esquerda progressista, cuja soma é maior do que as partes”).Os problemas de fundo do Reino Unido não são muito diferentes dos do resto do mundo euro-americano. Segundo o Sunday Times, as 200 famílias mais ricas de Inglaterra, que em 1989 eram donas de 5% do PNB, são hoje donas de 25% da riqueza nacional; faltam quatro milhões de casas e há população imigrante que não se integra, porque não a deixam, mas também porque não se quer integrar; e há escândalos, como o dos gangs de asiáticos violadores, que a polícia inglesa deixou por investigar por temer acusações de “racismo”.Burnham é um político de carreira que foi ministro do “New Labour” de Blair e um grande entusiasta da desastrosa invasão do Iraque. Como já não era membro do Parlamento, avançou para Makerfield, onde venceu com 54,8% dos votos, contra os 34,5% de Rob Kenyon, do Reform, e os 6,8% de Rebecca Shepherd, do Restaure (o novo partido ainda mais à direita do que o Reform). Os Conservadores, os Liberais e os Verdes não chegaram ali aos 5%.O Reino Unido está a mudar. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia