A curiosidade das crianças e jovens sobre o corpo, as relações e a sexualidade é natural e faz parte do seu desenvolvimento. O problema não está na curiosidade, mas no silêncio que muitas vezes a rodeia.Quando não encontram abertura na família para falar sobre estes temas, quando a escola não cria espaços seguros de diálogo e quando os adultos evitam perguntas por desconforto ou receio, as crianças procuram respostas onde conseguem - e hoje, isso significa quase sempre a internet. Procuram no Google, em chats anónimos, em redes sociais e, cada vez mais cedo, em sites de pornografia. O que encontram não é Educação Sexual, mas imagens explícitas que apresentam o sexo como um ato mecânico, desprovido de afeto, intimidade, respeito ou consentimento. Para muitas delas, esta é a primeira “aula” sobre sexualidade. E é uma aula profundamente distorcida.A pornografia mostra corpos sem história, relações sem vínculo, práticas sem contexto emocional. Mostra desempenho, não mostra relação. Mostra domínio, não mostra reciprocidade. Mostra prazer, não mostra cuidado.Para uma criança ou jovem que ainda está a construir referências internas sobre o que é uma relação íntima, esta exposição precoce não é apenas inadequada - é formativa. Significa isto que influencia expectativas, molda crenças e cria modelos que nada têm a ver com sexualidade saudável. Muitas crianças começam a acreditar que aquilo que veem é o que se espera delas, ou o que devem aceitar dos outros. Confundem sexo com sexualidade, confundem agressividade com desejo, confundem ausência de limites com normalidade. E fazem-no sozinhas, em silêncio, sem mediação adulta.O impacto deste consumo precoce é significativo. Aumenta a ansiedade, a vergonha e a confusão. Cria expectativas irreais sobre o corpo e sobre o outro. Normaliza comportamentos desrespeitosos ou agressivos. Dificulta a capacidade de reconhecer limites e de compreender o consentimento. Pode gerar medo, pressão ou comportamentos sexualizados que a criança não compreende. E tudo isto acontece porque os adultos não falaram a tempo. Porque se acreditou que “ainda era cedo”, quando, na verdade, já era tarde.O silêncio dos adultos é um risco. Quando a família não fala, a criança aprende que é um tema proibido. Quando a escola não fala, aprende que é um tema irrelevante. Quando os adultos não respondem, aprende que é um tema para resolver sozinha. E a internet, sempre disponível, sempre aberta, responde - mesmo quando responde mal.A Educação Sexual não é um luxo, nem uma opção. É uma medida de proteção. É prevenção de abuso. É promoção de saúde mental. É construção de autonomia. É desenvolvimento integral.As crianças precisam de informação verdadeira, linguagem adequada à idade, espaço para perguntar e adultos que não se envergonham do tema. Precisam de saber que a sexualidade envolve afeto, comunicação, limites, responsabilidade e respeito. Precisam de aprender que o corpo é seu, que o consentimento é obrigatório, e que o outro não é um objeto.Quando não educamos, deixamos que a internet eduque. E a internet não educa - expõe.É isto que muitas crianças estão a ver e a aprender; que muitas crianças estão a apreender, sozinhas, sem orientação, num silêncio que as fragiliza. A responsabilidade é nossa: falar cedo, de forma clara e estar presente, para que a curiosidade natural não se transforme em vulnerabilidade.