PSU: combater a pobreza ou combater os pobres?

Alexandra Leitão

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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O Governo apresentou uma proposta de lei à Assembleia da República (AR) cujo objeto é a agregação de vários subsídios e apoios sociais numa Prestação Social Única (PSU).

Muitos dos aspetos que rodeiam esta proposta de lei são bastante preocupantes.

Quanto ao procedimento, foi adotado um processo legislativo urgente, com discussão e votação na generalidade num único dia e especialidade em apenas dez dias. O mais grave, contudo, é tratar-se de uma lei de autorização legislativa, ou seja, em vez de o regime jurídico ser aprovado pela AR, este órgão apenas aprovará (ou não) a autorização para o Governo legislar. E, ainda pior, remetem-se várias matérias para portaria a aprovar posteriormente, incluindo o montante da prestação, o que retira ao Parlamento a possibilidade de apreciar, discutir e votar esse elemento essencial, sem o qual é impossível avaliar o impacto real desta medida.

Esta opção torna a lei de autorização legislativa uma espécie de “cheque em branco” ao Governo e prejudica muito o debate e o escrutínio que uma mudança desta extensão exige.

Por outro lado, apesar de a unificação de prestações já estar prevista no PRR e se afigurar como positiva e simplificadora, o conteúdo que consta da proposta do Governo nada tem a ver com a ideia inicial e constitui um recuo inadmissível nos apoios sociais, numa tripla dimensão.

Em primeiro lugar, impõe condições de acesso mais restritivas, tais como a contabilização dos apoios à habitação e o facto de o agregado familiar não poder ser proprietário de bens imóveis e móveis de valor superior a 30 vezes o valor do IAS (ou seja, cerca de 16.000€), o que diminuirá seguramente o universo de beneficiários abrangido.

Em segundo lugar, a iniquidade de impor a qualquer membro do agregado familiar com idade igual ou superior a 18 anos e inferior à idade da aposentação que não esteja a trabalhar a obrigação de ter disponibilidade para o exercício de atividades de solidariedade social.

O que é que isto quer dizer? Significa trabalho não-remunerado até um máximo semanal de 15 horas ou de 20 horas após a terceira renovação da PSU.

Ao contrário do que aparenta, esta imposição é um retrocesso enorme em matéria de inclusão, porque nada diz sobre formação, nem sobre a criação de oportunidades. Mais: esta obrigação contribui também para desvalorizar o valor do trabalho.

Em terceiro lugar, a proposta prevê a criação de um canal de denúncias, junto da instituição gestora, destinado à comunicação de situações de fraude, abuso ou acesso indevido à PSU. Não há dúvidas de que é preciso fiscalizar, monitorizar e ter meios para fazer cessar os abusos. Mas um canal de denúncia nestes termos tem uma dimensão persecutória que o Estado não deve incentivar.

Por tudo isto, este diploma não visa combater a pobreza, antes assenta numa visão preconceituosa das pessoas mais vulneráveis, colocando-as sob suspeita, retirando-lhes direitos e criando uma lógica punitiva e hostil que uma sociedade solidária e humanista não pode sufragar.

É uma cedência clara ao populismo mais básico, na linha do que este Governo nos vem, infelizmente, habituando. Na Lei da Nacionalidade, na reforma laboral, na revisão constitucional. E assim se vai destruindo a nossa Democracia e o nosso Estado social.

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