É proibido discordar de Jerry Seinfeld?

Pedro Tadeu

Jornalista

Publicado a

Ao longo da História, os artistas tomaram sempre posições políticas que dividiram o público. Essa intervenção é um valor para a sociedade: alarga o debate e confronta o poder. Em 1914, o dramaturgo Bernard Shaw contestou a propaganda da Primeira Guerra Mundial e foi qualificado como traidor. Em 1921, a bailarina Isadora Duncan foi abrir uma escola na Rússia bolchevique e foi insultada. Ambos são, agora, símbolos artísticos mundiais.

José Afonso, Carlos Paredes ou Fernando Lopes-Graça criticaram a Guerra Colonial prosseguida pelo fascismo português. Foram, na época, acusados de trair com palavras a pátria. Hoje são símbolos artísticos nacionais.

Recordo isto por causa das desistências do festival Commedia à La Carte, que tem Jerry Seinfeld como cabeça de cartaz. Inês Aires Pereira explicou a sua recusa em participar em solidariedade para com a Palestina. Outros artistas também abandonaram o cartaz.

Quem toma esta decisão abdica de uma oportunidade de trabalho e de exposição pública. Uma recusa destas tem custos profissionais e financeiros, e isso, no debate entretanto criado, está a ser esquecido.

Jerry Seinfeld é um génio da comédia, que adoro. Isso não valida as suas posições políticas. O talento não dá razão. O humorista declarou o seu apoio a Israel e chegou a comparar o movimento “Palestina Livre” ao Ku Klux Klan. Tem direito a dizer o que pensa, mas seus colegas têm exatamente o mesmo direito a discordar.

Recordo, para quem ande esquecido, que esta posição de Seinfeld é discutida num contexto em que o Governo israelita massacra a população de Gaza, destrói as condições da sua sobrevivência e pratica atos que a Amnistia Internacional classificou como genocídio. A desproporção em relação aos ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 é evidente. Esses crimes não justificam matar civis, provocar fome ou destruir um território. As vítimas palestinianas não são responsáveis coletivamente pelos crimes do Hamas.

Entretanto, nos Estados Unidos, Macklemore foi afastado da digressão de Ed Sheeran, depois de defender a Palestina em palco. Sheeran atribuiu a decisão ao promotor, sob pressão de proprietários de estádios. Aaron Rowe, Lukas Graham, Finneas e os Beoga desistiram de participar em solidariedade com Macklemore.

Robert Kraft, dono de um dos estádios, invocou antissemitismo. Mas criticar Israel e defender os direitos dos palestinianos, como Macklemore fez, não equivale a hostilizar os judeus, isso é uma falácia propagandística.

Há uma diferença entre impedir alguém de falar e decidir não participar. Macklemore foi excluído. Em Portugal ninguém excluiu Seinfeld. Os músicos que apoiaram Macklemore retiraram-se e vejo alguns dos que criticaram os artistas portugueses no caso Seinfeld a aplaudi-los – que contradição!

A liberdade artística inclui escolher com quem se trabalha e a que iniciativas se associa o nome. Podemos discutir cada decisão ou qual foi o processo com que se chegou até ela. O que não faz sentido é reconhecer cidadania ao artista que apoia Israel e negá-la ao que se solidariza com a Palestina. O que não faz sentido é pretender que os artistas não devem tomar posições políticas numa situação tão extrema como o genocídio de palestinianos, em nome do respeito por um contrato comercial.

Os portugueses que recusaram esse palco tomaram uma posição legítima. Honra-os como cidadãos. Não lhes devemos exigir que entretenham o público à custa de calarem a consciência. Tenho orgulho neles.

Diário de Notícias
www.dn.pt