O mundo já não observa apenas com inquietação — observa com perplexidade. Em poucos meses, a segunda Presidência de Donald Trump transformou a política externa norte-americana numa demonstração aberta de força, onde a lógica do facto consumado substitui a diplomacia e o multilateralismo é tratado como obstáculo, não como instrumento.A captura de Nicolás Maduro, as ameaças à Gronelândia e a eliminação do Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, não são episódios isolados. São peças de uma mesma estratégia: afirmar hegemonia através da coerção direta, testando até onde o mundo está disposto a tolerar.A Operação Absolute Resolve, que levou Maduro de Caracas para Nova Iorque, não foi apenas uma ação cirúrgica contra um regime autoritário. Foi uma mensagem política inequívoca: Washington considera-se novamente com legitimidade para intervir unilateralmente no seu “quintal estratégico”. A Doutrina Monroe, que muitos julgavam um artefacto do século XIX, regressa sob nova embalagem — jurídica, mediática e militar.O levantamento seletivo de sanções e a reconfiguração do setor petrolífero venezuelano revelam que a moralidade invocada anda de mãos dadas com interesses energéticos. A narrativa da libertação convive, sem grande pudor, com a reorganização económica sob tutela externa. E quando Trump declara que os Estados Unidos “gerirão o país até ser seguro entregá-lo”, a frase ecoa menos como promessa de transição democrática e mais como afirmação de protetorado.O caso da Gronelândia é igualmente revelador. A pressão sobre a Dinamarca mostrou que, para esta administração, alianças são instrumentos contingentes, não compromissos estruturais. Ao admitir o uso da força para adquirir território aliado, Washington quebrou um tabu geopolítico dentro da própria NATO. A confiança — verdadeiro cimento da Aliança Atlântica — não resiste facilmente a este tipo de teste.Mas foi no Irão que a doutrina da força atingiu o seu ponto máximo. A morte de Ali Khamenei, confirmada por Teerão, inaugurou uma fase de imprevisibilidade estratégica raramente vista desde o início do século XXI. Falar abertamente em “mudança de regime” numa potência regional com capacidade de retaliação assimétrica é jogar xadrez geopolítico com peças inflamáveis.O Estreito de Ormuz sob ameaça, o petróleo em escalada, mísseis sobre Israel e bases americanas: a região entrou num ciclo de ação-reação cujo fim ninguém controla plenamente. O risco já não é apenas regional; é sistémico.Perante este padrão, a pergunta “qual será o próximo alvo?” deixa de soar especulativa e passa a ser estrutural.Cuba surge como hipótese lógica, fragilizada pela perda do apoio energético venezuelano. A Coreia do Norte observa, calculando custos e oportunidades. No Indo-Pacífico, Taiwan permanece o epicentro latente de uma confrontação maior entre Washington e Pequim. Mesmo cenários aparentemente improváveis — como pressões acrescidas sobre o Panamá ou intervenções indiretas em África — deixam de parecer ficção estratégica.O que une todos estes episódios não é apenas a retórica musculada; é a normalização da exceção. A ideia de que a estabilidade internacional depende menos de regras partilhadas e mais da capacidade de impor vontades.Para a União Europeia, isto representa um dilema existencial. Se o principal aliado age de forma imprevisível e coerciva, a autonomia estratégica deixa de ser um slogan francês e passa a necessidade estrutural. Portugal, na periferia atlântica, mas no centro das rotas energéticas e comerciais, não pode assistir como mero espectador. A instabilidade no Atlântico Norte e no Médio Oriente atinge-nos diretamente.A questão central não é se estas ações são eficazes a curto prazo. Podem sê-lo. A questão é que mundo produzem a médio e longo prazo. Um mundo onde as potências agem sem constrangimentos multilaterais tende a tornar-se menos previsível, mais volátil e mais propenso a escaladas acidentais.A era Trump 2.0 não é apenas uma mudança de estilo; é uma alteração de paradigma. Se esta lógica se consolidar, estaremos perante o regresso explícito da política de esferas de influência, onde o poder substitui a norma.E quando a força passa a falar mais alto do que o direito, a História ensina-nos que raramente é a última palavra.