Maturidade democrática. Talvez esta seja a frase mais importante expressa no discurso de António José Seguro (AJS) na sua tomada de posse como novo Presidente da República.Maturidade democrática é o que falta não apenas aos partidos políticos, mas a variadíssimas instituições que colocam os seus interesses e egoísmos à frente das prioridades do todo nacional.Logo no dia seguinte à sua posse, ouvi AJS fazer uma apelo quase lancinante ao Governo, patrões e UGT para que retomassem as negociações sobre a reforma da legislação laboral.Começou, pois, o uso da palavra presidencial, um dos instrumentos mais importantes que o Presidente da República tem para inverter essa tendência doentia que instituições e partidos têm de colocar os seus mesquinhos interesses à frente das necessidades nacionais. Neste caso, trata-se de encontrar um consenso à volta de uma nova formatação da legislação laboral uma reforma estrutural tão necessária ao país. Vamos ver qual o resultado deste primeiro apelo do novo Presidente!O discurso de tomada de posse de AJS foi um interminável ror dos velhos constrangimentos que continuam a marcar a sociedade portuguesa e que, justamente pela imaturidade dos partidos e instituições, pela sua incapacidade de diálogo, continuam a penalizar os portugueses com baixos salários, falta de habitação, uma saúde desorganizada e ineficiente, transportes públicos obsoletos, uma burocracia asfixiante, uma função pública lenta e ineficaz e uma Justiça que não para de nos surpreender pela negativa.Não sei se os apelos presidenciais vão servir de muito para dar um contributo na resolução destas questões que já parecem ser o nosso drama civilizacional moderno.Naturalmente são boas as intenções de AJS e é até arriscada a escolha que o novo Presidente fez ao lançar um repto a todos os partidos para a concretização de um pacto sobre a Saúde. Pacto de partidos e Saúde! Ora aqui está uma realidade que aparenta ser uma quadratura do círculo. O que é que podemos dizer sobre isto? Talvez desejar boa sorte ao novo Presidente da República e pedir aos deuses que o dossier da Saúde não tenha o mesmo destino que os sem-abrigo de Marcelo Rebelo de Sousa. Oxalá!O novo Presidente também quer estabilidade! Está corretissimo. Estabilidade política é uma “boa onda”, como diriam os jovens numa noite de sábado. Ninguém parece estar com vontade de regressar às urnas para colocar lá votos que podem voltar a não servir para nada.Mas se não virmos ventos de mudança, se tudo permanecer inerte, se Montenegro não acordar da letargia em que parece ter caído, de que nos vale a estabilidade. Manter uma paz podre? Para quê? Só se justifica manter a atual configuração política parlamentar se começarmos a ver o país a mexer. Caso contrário é preferível atirar uma pedra ao charco e desencadear novas eleições.António José Seguro assume funções presidenciais num momento de grande sensibilidade internacional. Ainda que no seu discurso de tomada de posse não tenha dado grande espaço ao assunto das guerras, que Trump e Putin têm espalhado no mundo, elas começam a ter pesadas consequências económicas e financeiras.Inflação, aumento de preços, escassez de produtos essenciais por razões logísticas. Estas são realidades que podemos ter de enfrentar mais acentuadamente se os atuais conflitos bélicos se agravarem e não conhecerem uma resolução a breve trecho.O discurso de tomada de posse de AJS foi uma súmula do que andou a dizer durante a campanha eleitoral. Os dossiers nacionais e internacionais que vai ter de enfrentar não lhe vão dar descanso. Terá de ser assertivo e ter grande habilidade persuasiva, palavra eficaz no momento certo, capacidade de decisão e um saudável entendimento com o primeiro-ministro para que a sua magistratura presidencial possa vir a ter sucesso.Alguns dos assuntos que se avistam no horizonte e de que falámos atrás vão carecer de grande sensibilidade política e capacidade de negociação. Alguns de tão complicados que se apresentam, quando a palavra presidencial estiver esgotada, talvez presidir ao Conselho de Ministros possa ajudar..