É preciso educar para a economia da sustentabilidade

Sofia Santos

PhD, CEO da Systemic

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A Educação é o tema central na promoção do desenvolvimento sustentável. O setor público, e os políticos, necessitam de ter o conhecimento necessário para incluir os temas ambientais nas políticas públicas, na estimativas de despesas, nos cadernos de encargos, na política fiscal...; o setor empresarial necessita de compreender os riscos e oportunidades que uma boa gestão climática e ambiental pode levar à sua empresa ...; o setor financeiro necessita de saber implementar as obrigações que o Banco Central Europeu tem vindo a impor no que respeita à inclusão dos riscos climáticos e de ESG na gestão do risco, políticas e procedimentos ...; as autarquias necessitam de incorporar estes temas no ordenamento do território, na gestão urbana, na mobilidade, na eficiência energética, nas contrapartidas que podem exigir a grandes investimentos e na proximidade com os cidadãos .. ; as associações empresariais têm um papel crítico na capacitação das empresas, especialmente das PME, funcionando como veículos de disseminação de conhecimento e boas-práticas ...; e as ONG são fundamentais na mobilização da sociedade civil, no escrutínio e na promoção de soluções inovadoras .... Sem esta visão integrada, a educação para a sustentabilidade continuará fragmentada e, por isso, insuficiente.

Sendo de louvar que Portugal tem em discussão pública a revisão da Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2035 (ENEA 2035), o texto atual necessita, na minha opinião, de melhorias significativas na forma como os autores iniciais compreendem a importância das empresas para uma efetiva implementação de boas-práticas ambientais e de sustentabilidade.

Um estudo do LinkedIn Green Skills Report 2025 conclui que a contratação “verde” cresce 6,2% ao ano, enquanto que as competências crescem apenas 3,4%. O mesmo estudo afirma ainda que, entre 2024 e 2025, a procura acelerou ainda mais (+7,7%) face ao crescimento das competências (4,3%) evidenciando um défice estrutural de talento, concluindo-se que as pessoas com competências verdes têm uma taxa de contratação 46% superior à média do mercado.

Nesta estratégia, em discussão pública atualmente, não se encontra uma única referencia a “competências verdes,” apesar das várias publicações europeias sobre este tema. Na realidade, em 2021, o European Centre for the Development of Vocational Training, divulgou um estudo intitulado O Emprego Verde e as Competência de Transformação no qual realiza cenários sobre potenciais áreas futuras de desenvolvimento de competências verdes.

Em 2025 a OCDE também publicou mais um relatório sobre Employment and Skills Policies for the Green Transition, que transmite as seguintes mensagens:

  • a transição verde está a transformar o mercado de trabalho de forma estrutural, criando procura por novas competências em praticamente todos os setores;

  • as chamadas green skills já não estão confinadas a setores ambientais, mas estão a espalhar-se por toda a economia (indústria, finanças, construção, logística, etc.);

  • existe um problema central, pois a procura por competências verdes está a crescer mais rápido do que a capacidade de as formar;

  • a educação é o principal fator crítico da transição verde, e está atrasada;

  • os currículos não estão alinhados com a economia verde;

  • a OCDE defende que se deve alinhar ensino com necessidades reais do mercado de trabalho e integrar sustentabilidade em várias disciplinas (não isolada);

  • professores e instituições não estão preparados;

  • a OCDE sublinha necessidade de formar professores em sustentabilidade e de novos métodos pedagógicos;

  • falta ligação entre Educação e empresas, existindo pouca articulação entre sistema educativo, empresas e necessidades reais da economia;

  • a OCDE defende parcerias, aprendizagem em contexto real e cocriação de programas.

Assim, a atual Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2035 em discussão pública continua assente numa lógica de literacia ambiental, cidadania e sensibilização; e não numa lógica de transformação do sistema económico, capacitação produtiva e integração com finanças e investimento. Mesmo quando refere sustentabilidade, fá-lo sobretudo como valor e comportamento, e não como infraestrutura económica. A estratégia não internaliza a ideia-chave da OCDE: sustentabilidade é política económica, não apenas política educativa.

Na ENEA não há mapeamento de green skills, ligação a profissões e ligação a cadeias de valor, pois continua no plano da sensibilização e não entra no detalhe daquilo que verdadeiramente falta: competências técnicas para executar a transição.

E acima de tudo, a atual ENAE tem uma enorme fragilidade: as empresas são tratadas como destinatárias de sensibilização e não como o principal motor da transição, exatamente o oposto do que a OCDE defende.

O que a OCDE nos diz é simples: o desafio não é sensibilizar, é transformar. E essa transformação exige competências, sistemas educativos alinhados com o mercado, e empresas no centro da solução.

A ENEA 2030, apesar do seu mérito, permanece presa a uma visão em que o ambiente ainda é tratado como tema pedagógico, quando já deveria ser tratado como infraestrutura económica.

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