O antigo líder do CDS, José Ribeiro e Castro, afirmou na Rádio Observador que o partido não pode correr o risco de deixar os temas da portugalidade para o Chega, sob pena de André Ventura chegar um dia à maioria absoluta. Ribeiro e Castro disse ainda que a AD “não levantou voo”, numa referência às sondagens que têm mostrado uma ligeira queda das intenções de voto na coligação PSD-CDS, com o PS a ultrapassá-la e o Chega a aproximar-se perigosamente.O alerta é compreensível no que toca ao desgaste do Governo, mas parece menos ajustado quando se fala da portugalidade. Há certamente quem valorize esses temas, que tocam na identidade nacional e que alimentaram debates intensos nos últimos anos. Mas tudo indica que essa agenda perdeu parte da centralidade que teve, e perdeu-a não por saturação interna, mas porque o mundo mudou depressa demais para que a política portuguesa continuasse a girar em torno de símbolos.Portugal tem uma longa tradição de chegar tarde às grandes tendências ideológicas. Foi assim com o liberalismo económico e social que marcou o Ocidente nos anos 80 e que só encontrou expressão partidária consistente em Portugal três décadas depois. Foi assim com o populismo soberanista, que cresceu na Europa do norte e nos Estados Unidos muito antes de André Ventura fundar o Chega em 2019. Uma parte relevante do eleitorado que se revê nesses movimentos fá-lo porque rejeita a visão liberal e globalista que dominou o pós Guerra Fria e que assentou na liberdade de circulação de pessoas, capital, bens e serviços. Como sempre acontece em temas que se tornam bandeiras identitárias, os extremos alimentam-se mutuamente e criam a ilusão de que o debate político se resume a uma disputa entre “patriotas” e “cosmopolitas”.Porém, o mundo de 2026 já não é de 2016. A guerra no Médio Oriente, com a escalada entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, com um impacto direto no comércio global, expôs a vulnerabilidade europeia de forma abrupta. A Europa percebeu finalmente que depende demasiado dos Estados Unidos para a sua segurança e de terceiros para a sua energia e cadeias de abastecimento. Quando a perceção de risco aumenta, o eleitorado procura proteção, mas essa proteção já não é vista apenas na bandeira nacional. Cada vez mais, é vista na capacidade da Europa agir como bloco, coordenar políticas de defesa, reforçar a autonomia estratégica e responder a crises que nenhum estado consegue enfrentar sozinho.É neste contexto que os temas patrióticos parecem atingir o seu limite de crescimento. Não porque deixem de mobilizar, mas porque deixaram de oferecer respostas suficientes. A necessidade de maior união a nível europeu deixou de ser um debate académico e passou a ser uma exigência prática. E, quando a realidade impõe cooperação, o apelo ao “nacional primeiro” perde eficácia.A própria evolução da direita soberanista europeia confirma esta mudança de ciclo. Giorgia Meloni, que chegou ao poder em Itália com um discurso duro, tem governado com pragmatismo e alinhamento europeu em matérias essenciais. Em Espanha, o Vox perdeu capacidade de expansão e tem sido ultrapassado por uma direita mais institucional, sinal de que o eleitorado distingue cada vez mais entre protesto e governação. A vaga populista não desapareceu, mas estabilizou e adaptou-se. E, ao estabilizar, deixou menos espaço para que bandeiras identitárias funcionem como motor eleitoral.Em Portugal, a nova lei da imigração reforça esta tendência. A redução drástica das manifestações de interesse retirou oxigénio a um dos temas que mais alimentavam a retórica soberanista. Ao fechar a porta a um sistema que se tornara difícil de controlar, o Governo neutralizou parte do terreno onde o Chega construíra o seu discurso. A imigração continua a ser um tema sensível, mas já não tem a mesma capacidade de incendiar o debate público.Este contexto internacional e interno contrasta com a situação da AD, que governa em minoria e tenta avançar com reformas difíceis sem o apoio parlamentar necessário. A fragilidade política do Governo não resulta apenas da erosão natural do exercício do poder, mas também da dificuldade em construir consensos num Parlamento fragmentado e de comunicar uma estratégia clara para um país que enfrenta desafios estruturais. A AD precisa de explicar como pretende reformar o Estado, modernizar a economia e reforçar a posição de Portugal na Europa num momento em que a política externa e a política interna se tornaram inseparáveis.O risco para a AD não está em abandonar os temas da portugalidade, mas em não conseguir apresentar uma narrativa coerente para o país num tempo em que a Europa se recentra e em que a política internacional condiciona cada decisão doméstica. O eleitorado português acompanha as tendências globais com atraso, mas acompanha. E hoje, mais do que discutir símbolos, procura respostas para um mundo mais perigoso, mais volátil e mais interdependente.A política portuguesa não se decide na disputa sobre quem é mais patriota. Decide-se na capacidade de interpretar o tempo histórico. E o tempo histórico de 2026 pede menos bandeiras e mais estratégia.