Portugalidade? Menos bandeiras e mais estratégia

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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O antigo líder do CDS, José Ribeiro e Castro, afirmou na Rádio Observador que o partido não pode correr o risco de deixar os temas da portugalidade para o Chega, sob pena de André Ventura chegar um dia à maioria absoluta. Ribeiro e Castro disse ainda que a AD “não levantou voo”, numa referência às sondagens que têm mostrado uma ligeira queda das intenções de voto na coligação PSD-CDS, com o PS a ultrapassá-la e o Chega a aproximar-se perigosamente.

O alerta é compreensível no que toca ao desgaste do Governo, mas parece menos ajustado quando se fala da portugalidade. Há certamente quem valorize esses temas, que tocam na identidade nacional e que alimentaram debates intensos nos últimos anos. Mas tudo indica que essa agenda perdeu parte da centralidade que teve, e perdeu-a não por saturação interna, mas porque o mundo mudou depressa demais para que a política portuguesa continuasse a girar em torno de símbolos.

Portugal tem uma longa tradição de chegar tarde às grandes tendências ideológicas. Foi assim com o liberalismo económico e social que marcou o Ocidente nos anos 80 e que só encontrou expressão partidária consistente em Portugal três décadas depois. Foi assim com o populismo soberanista, que cresceu na Europa do norte e nos Estados Unidos muito antes de André Ventura fundar o Chega em 2019. Uma parte relevante do eleitorado que se revê nesses movimentos fá-lo porque rejeita a visão liberal e globalista que dominou o pós Guerra Fria e que assentou na liberdade de circulação de pessoas, capital, bens e serviços. Como sempre acontece em temas que se tornam bandeiras identitárias, os extremos alimentam-se mutuamente e criam a ilusão de que o debate político se resume a uma disputa entre “patriotas” e “cosmopolitas”.

Porém, o mundo de 2026 já não é de 2016. A guerra no Médio Oriente, com a escalada entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, com um impacto direto no comércio global, expôs a vulnerabilidade europeia de forma abrupta. A Europa percebeu finalmente que depende demasiado dos Estados Unidos para a sua segurança e de terceiros para a sua energia e cadeias de abastecimento. Quando a perceção de risco aumenta, o eleitorado procura proteção, mas essa proteção já não é vista apenas na bandeira nacional. Cada vez mais, é vista na capacidade da Europa agir como bloco, coordenar políticas de defesa, reforçar a autonomia estratégica e responder a crises que nenhum estado consegue enfrentar sozinho.

É neste contexto que os temas patrióticos parecem atingir o seu limite de crescimento. Não porque deixem de mobilizar, mas porque deixaram de oferecer respostas suficientes. A necessidade de maior união a nível europeu deixou de ser um debate académico e passou a ser uma exigência prática. E, quando a realidade impõe cooperação, o apelo ao “nacional primeiro” perde eficácia.

A própria evolução da direita soberanista europeia confirma esta mudança de ciclo. Giorgia Meloni, que chegou ao poder em Itália com um discurso duro, tem governado com pragmatismo e alinhamento europeu em matérias essenciais. Em Espanha, o Vox perdeu capacidade de expansão e tem sido ultrapassado por uma direita mais institucional, sinal de que o eleitorado distingue cada vez mais entre protesto e governação. A vaga populista não desapareceu, mas estabilizou e adaptou-se. E, ao estabilizar, deixou menos espaço para que bandeiras identitárias funcionem como motor eleitoral.

Em Portugal, a nova lei da imigração reforça esta tendência. A redução drástica das manifestações de interesse retirou oxigénio a um dos temas que mais alimentavam a retórica soberanista. Ao fechar a porta a um sistema que se tornara difícil de controlar, o Governo neutralizou parte do terreno onde o Chega construíra o seu discurso. A imigração continua a ser um tema sensível, mas já não tem a mesma capacidade de incendiar o debate público.

Este contexto internacional e interno contrasta com a situação da AD, que governa em minoria e tenta avançar com reformas difíceis sem o apoio parlamentar necessário. A fragilidade política do Governo não resulta apenas da erosão natural do exercício do poder, mas também da dificuldade em construir consensos num Parlamento fragmentado e de comunicar uma estratégia clara para um país que enfrenta desafios estruturais. A AD precisa de explicar como pretende reformar o Estado, modernizar a economia e reforçar a posição de Portugal na Europa num momento em que a política externa e a política interna se tornaram inseparáveis.

O risco para a AD não está em abandonar os temas da portugalidade, mas em não conseguir apresentar uma narrativa coerente para o país num tempo em que a Europa se recentra e em que a política internacional condiciona cada decisão doméstica. O eleitorado português acompanha as tendências globais com atraso, mas acompanha. E hoje, mais do que discutir símbolos, procura respostas para um mundo mais perigoso, mais volátil e mais interdependente.

A política portuguesa não se decide na disputa sobre quem é mais patriota. Decide-se na capacidade de interpretar o tempo histórico. E o tempo histórico de 2026 pede menos bandeiras e mais estratégia.

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