Há imagens que Portugal conhece demasiado bem. As chamas a avançarem pelas serras, populações a olharem para o fogo à porta de casa, estradas cortadas, bombeiros exaustos e um país que, em pleno agosto, volta a descobrir que está a arder. Mudam os lugares, mudam os anos, mas demasiadas vezes a história parece ser a mesma.
Este fim de semana voltou a lembrá-lo. Incêndios em Torre de Moncorvo e Chaves mobilizaram centenas de operacionais e obrigaram a concentrar novamente importantes meios de combate no Norte do país. Em Vinhais, cinco bombeiros ficaram feridos, dois deles com gravidade, depois de o veículo de combate em que seguiam ter sido consumido pelas chamas. Em Amarante, um cidadão morreu num acidente que envolveu uma viatura dos Bombeiros Voluntários de Amarante, integrada no dispositivo de combate ao incêndio de Celorico de Basto. Três bombeiros ficaram feridos.
São acontecimentos que obrigam, antes de tudo, a reconhecer aqueles que estão na primeira linha. Portugal deve muito aos bombeiros e aos restantes operacionais que, verão após verão, arriscam a vida para proteger pessoas, casas, empresas, animais e território. Mas esse reconhecimento não pode servir para esconder uma pergunta que se tornou impossível evitar: quantos verões mais serão necessários para deixarmos de enfrentar o problema, sobretudo quando as chamas já estão no terreno?
Os números deste ano deveriam bastar para provocar essa reflexão. Até 31 de julho, tinham ardido 53.731 hectares em Portugal, na sequência de 5755 incêndios rurais. Comparando com a média dos dez anos anteriores, registaram-se mais 1% de incêndios, mas a área ardida aumentou 58%.
Há uma mensagem nestes números que não pode ser ignorada. O problema português não se mede apenas pelo número de ignições. Mede-se também pela capacidade que alguns incêndios adquirem de crescer rapidamente, atravessar territórios e desafiar um dispositivo que, por muitos meios que tenha, encontrará sempre limites perante fenómenos extremos.
E diagnósticos não faltam.
A Comissão Técnica Independente que avaliou os incêndios de agosto de 2025 voltou recentemente a confrontar o país com uma realidade incómoda: as reformas realizadas não foram suficientes para garantir uma resposta adequada aos grandes incêndios. O relatório identifica falhas e fragilidades e devolve ao debate público problemas que Portugal conhece há demasiados anos.
Não nos faltam diagnósticos. Falta transformar diagnósticos num território diferente.
Essa é a questão essencial. O abandono de vastas áreas do interior, o envelhecimento da população, a fragmentação da propriedade, a acumulação de combustível, a dificuldade de gerir milhares de parcelas e uma floresta que, em muitos locais, não é economicamente valorizada criaram condições que nenhum exército de bombeiros consegue resolver durante uma tarde de agosto. E, apesar de ter aumentado o número de detenções de incendiários, conforme se pode ler na reportagem da página 10 desta edição do DN, o que é certo é que se continua a trabalhar a posteriori.
O combate é indispensável. A prevenção é decisiva.
Portugal investiu, aprendeu e alterou profundamente o sistema depois das tragédias de 2017. Seria injusto dizer que nada mudou. Mudou. Há mais conhecimento, planeamento, vigilância e capacidade de resposta. Mas reconhecer os progressos não obriga a ignorar aquilo que continua por fazer. Pelo contrário. Quando, quase uma década depois de Pedrógão Grande, continuamos a assistir a grandes incêndios e a discutir muitas das mesmas fragilidades, temos de perguntar se o ritmo da transformação está à altura do risco.
E o risco também mudou. Temperaturas mais elevadas, períodos prolongados de seca e fenómenos meteorológicos extremos aumentam as condições favoráveis à ocorrência e propagação de incêndios violentos. Portugal não pode preparar o território para o clima de ontem. Tem de o preparar para a realidade que já enfrenta.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre bombeiros, aviões ou número de operacionais. Passa a ser sobre política florestal, agricultura, ordenamento do território, valorização económica do interior, gestão de combustíveis, cadastro da propriedade e responsabilização de quem tem obrigação de cuidar do terreno.
Continuar a medir a força do país pelo número de homens, mulheres, viaturas e aviões que conseguimos colocar diante das chamas é aceitar que chegámos demasiado tarde. A verdadeira medida do sucesso terá de ser outra: quantos incêndios conseguimos evitar e, quando começam, quantos impedimos de se transformar em grandes incêndios.
Quando este verão terminar, haverá balanços. Contaremos hectares, prejuízos, casas atingidas e dinheiro gasto. Voltaremos a discutir medidas, responsabilidades e reformas. E, se nada de verdadeiramente estrutural mudar, no próximo verão voltaremos provavelmente às mesmas imagens, às mesmas perguntas e às mesmas promessas.
É precisamente esse ciclo que Portugal tem de quebrar.
Os incêndios podem fazer parte dos nossos verões. A resignação perante um país que arde todos os anos não pode fazer parte do nosso futuro.