Sim, é verdade, tudo pode mudar de um jogo para o outro. Às vezes, bastam detalhes para que a dinâmica coletiva ganhe nova expressão. Um dia de maior inspiração individual por parte de um jogador, uma pequena alteração tática que se revele certeira, o orgulho ferido dos atletas perante as críticas a funcionar como combustível para uma exibição mais agressiva e assertiva em campo – qualquer um destes cenários pode ser o elemento transformador, que catapulte a equipa para uma novo patamar. No entanto, o tempo passa e não está fácil para o adepto português ganhar a convicção de que é desta que “Vai Dar Portugal” no Mundial, o slogan escolhido pela Federação para o torneio nos Estados Unidos, México e Canadá. O selecionador Roberto Martínez encabeça os destinatários das críticas e, de facto, não tem facilitado a própria vida. Talvez o exemplo mais cabal seja a incompreensível gestão física de Cristiano Ronaldo, que o selecionador espanhol não fez descansar um minuto sequer nos três jogos da fase de grupos (ao contrário do que aconteceu com outras estrelas da prova como Messi, Haaland, Mbappé e Dembélé), num caso que mais parece teimosia pessoal do que opção técnica. Pior mesmo, só se for receio da reação que o capitão português pudesse ter...Seja como for, não é justo atribuir ao treinador espanhol toda a responsabilidade pelos fracos desempenhos. Portugal tem jogadores carregados de talento, mas a atitude em campo não tem sido a de quem tem fome de vencer. Longe disso. Segunda-feira, João Félix foi o porta-voz do grupo nacional e, falando à comunicação social, descreveu o estado de espírito da equipa em jeito de conselho aos adeptos portugueses: “A malta aqui está tranquila. Não é por termos empatado dois jogos que estamos menos confiantes. É um Mundial. A malta só tem de estar tranquila.” Ninguém quer uma equipa à beira de um ataque de nervos, mas tanta tranquilidade, no mais importante torneio do mundo, também não é propriamente o que se espera de uma seleção que ambiciona lutar pelo título mundial. Milhões de adeptos, que esticam madrugada fora as horas em frente à televisão, ou numa das fan zones espalhadas pelo país, para ver Portugal jogar, ou que levam esse apoio até aos estádios (como o DN conta esta quarta-feira), merecem outra atitude. O que se pede é garra, vontade de vencer, empenho em dominar o adversário através das nossas melhores características, em vez de ficar na expectativa de um erro do rival, sob constante ameaça. É isso que se espera de uma equipa que tem, inquestionavelmente, tanta experiência internacional e tanto talento individual como esta, que Portugal reuniu para o Mundial 2026.Na madrugada de sexta-feira, frente à Croácia, os portugueses voltarão a cumprir o seu papel no apoio à equipa. Aos jogadores, o que se pede é que tenham presente essa responsabilidade e que sejam ambiciosos. Se o fizerem e tiverem a atitude certa em campo, qualquer que seja o resultado, já terão garantido, pelo menos, o respeito e a solidariedade dos adeptos. E isso vale mais do que qualquer taça.