Há uma tendência, hoje particularmente ruidosa em certos círculos intelectuais, principalmente de matriz marxista, para reduzir a identidade nacional a um mero contrato administrativo. Segundo essa leitura, a nacionalidade seria apenas um conjunto de direitos e deveres, desprovido de memória, continuidade histórica ou património civilizacional. Portugal seria, assim, uma construção circunstancial, permanentemente reconfigurável, sem uma identidade própria. Aliás, chegam a dizer que “não há uma identidade nacional original”.As comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal demonstram precisamente o contrário. Ao anunciar um programa que se estenderá da Batalha de São Mamede ao Tratado de Zamora, o Estado reconhece que existe um fio histórico que liga gerações sucessivas e que faz de Portugal uma das mais antigas nações da Europa. O próprio Governo assumiu como objectivo aprofundar o conhecimento das nossas raízes, da nossa cultura e da nossa identidade.Essa identidade não nasce da ilusão de uma homogeneidade absoluta, mas também não pode ser dissolvida na ideia de que tudo é intercambiável. Uma nação é uma comunidade histórica: partilha uma língua, símbolos, instituições, referências culturais e uma memória colectiva sedimentada ao longo dos séculos. Negar essa continuidade é amputar um povo da sua própria consciência.É por isso que estas comemorações são importantes. Não constituem um exercício de nostalgia nem uma operação eleitoral. São um acto de responsabilidade cultural. As efemérides não devem ser recordadas apenas quando a selecção nacional de futebol entra em campo. A identidade portuguesa merece um trabalho permanente de estudo, divulgação e valorização. E, se há críticas a fazer, talvez seja precisamente quando estas datas passam sem preparação, ou com atrasos incompreensíveis, como sucedeu com outros ciclos comemorativos recentes.Há ainda uma incoerência que estas comemorações deveriam ajudar a corrigir. Não faz sentido celebrar a identidade histórica de Portugal enquanto se mantém um dos maiores atentados culturais das últimas décadas: o Acordo Ortográfico de 1990. Sob o pretexto de uma uniformização nunca verdadeiramente alcançada, destruiu-se uma tradição escrita que acompanhou o crescimento e desenvolvimento de Portugal ao longo do tempo (assim como o de outros países de expressão portuguesa), apagaram-se marcas etimológicas, introduziram-se incoerências e empobreceu-se um dos principais elementos da nossa identidade colectiva. A língua não é um simples instrumento administrativo; é memória, cultura e civilização. Se queremos celebrar 900 anos de Portugal, talvez seja tempo de reparar um erro e devolver à língua portuguesa a dignidade que artificialmente lhe foi retirada. E preservar a autonomia do desenvolvimento da língua portuguesa nos vários territórios em que se implementou, anulando a pseudo-uniformização que não existe, nem nunca existiu. Ou seja, aproveitar a efeméride para corrigir um erro.Tenho ainda duas reservas. A primeira prende-se com a escolha do comissário-geral. Paulo Portas possui indiscutível experiência política e capacidade de mobilização, mas uma celebração desta natureza beneficiaria simbolicamente de ser liderada por um historiador, sublinhando o seu carácter científico e patrimonial, acima das inevitáveis leituras partidárias.A segunda é mais profunda. Lamento a ausência institucional da Família Real Portuguesa. Não apenas pela continuidade dinástica que remonta a D. Afonso Henriques, fundador do reino, mas também pelo trabalho persistente de representação internacional desenvolvido, durante décadas, por D. Duarte de Bragança, num esforço diplomático reconhecido e admirado além-fronteiras.A História não pertence a facções políticas ou disposições monarquia vs república. Pertence à Pátria. E é precisamente por isso que a História continua a ser o mais sólido fundamento da nossa identidade colectiva. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico