Portugal e a reconstrução do multilateralismo

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

Publicado a

A eleição de Portugal para o Conselho de Segurança das Nações Unidas representa uma oportunidade relevante para a nossa política externa porque o momento internacional exige algo que historicamente sabemos fazer: construir pontes.

O sistema internacional atravessa uma fase de fragmentação crescente. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente permanecem sem solução política à vista. A rivalidade entre os Estados Unidos e a China estrutura cada vez mais a política global. Ao mesmo tempo, desafios como as alterações climáticas, a Inteligência Artificial, a segurança energética ou as migrações ultrapassam fronteiras e exigem respostas coletivas. Nunca o multilateralismo foi tão necessário e nunca pareceu tão fragilizado.

Portugal possui uma característica rara. É simultaneamente europeu, atlântico, lusófono e ibero-americano. A sua identidade foi construída ao longo de séculos de interação entre continentes, culturas e povos. Essa realidade, reforçada por uma diáspora presente nos cinco continentes, confere-lhe uma posição singular no sistema internacional: a capacidade de compreender e dialogar com diferentes regiões do mundo sem ser percecionado como uma potência dominante ou uma ameaça estratégica. Poucos países dispõem de uma rede tão diversificada de afinidades históricas, culturais, linguísticas e humanas.

Esta multiplicidade de pertenças constitui uma vantagem estratégica num mundo cada vez mais dividido em blocos. Num período marcado pela polarização internacional, os países capazes de criar canais de comunicação entre diferentes regiões e sensibilidades políticas tornam-se particularmente valiosos.

Portugal não resolverá os grandes conflitos internacionais. Não é esse o seu papel. Mas pode contribuir para aproximar posições, promover diálogo e apoiar soluções multilaterais em áreas onde o consenso ainda é possível.

Uma dessas áreas é a articulação entre segurança, desenvolvimento e ajuda humanitária. Muitos dos conflitos contemporâneos estão ligados à pobreza, à fragilidade institucional, às desigualdades económicas e aos impactos das alterações climáticas. Portugal pode defender uma abordagem integrada que combine prevenção de conflitos, desenvolvimento sustentável e construção da paz.

Outra prioridade poderá ser a aproximação entre o norte e o sul, num momento em que muitas instituições internacionais continuam a refletir mais os equilíbrios de poder do passado do que as realidades do presente. Portugal encontra-se particularmente bem colocado para promover esse diálogo e aprofundar a cooperação com democracias influentes do Sul, como o Brasil, a Índia, a África do Sul ou a Indonésia.

A agenda portuguesa poderá igualmente valorizar áreas onde o país possui credibilidade reconhecida, como a governação dos oceanos, a transição energética ou a cooperação para o desenvolvimento.

Num tempo em que tantas potências privilegiam a competição, Portugal pode afirmar a utilidade da cooperação. Num tempo em que proliferam muros físicos e políticos, pode recordar a importância das pontes. E num tempo em que muitos questionam o multilateralismo, pode ajudar a demonstrar que a resposta não está no abandono das instituições internacionais, mas na sua renovação.

Para um país com vocação universalista e uma longa tradição diplomática, essa poderá ser uma das contribuições mais valiosas para a ordem internacional do século XXI. Assim tenhamos a vontade política, a cooperação entre instituições nacionais e os meios necessários para transformar uma oportunidade diplomática numa verdadeira estratégia nacional.

Diário de Notícias
www.dn.pt