Refletir e discorrer sobre o nosso país é sempre muito sedutor. Escrever sobre ele, já acarreta algum dificuldade. Mesmo ao fim de quase nove séculos de vida autónoma, esta é uma matéria em que o que se pode legitimamente esperar “cada cabeça, sua sentença”.Este é, pois, um texto atrevido e apenas correspondente a uma visão.Que aspetos mais nos caraterizam pela positiva? Talvez se possa referir que somos uma Nação una e coesa, milenar e estável, com apreciável sentido de comunidade e resiliência, com históricas e valiosas conexões à escala global, com um talento próprio para interagir com outras sociedades, pertencemos ao espaço mais desenvolvido do globo e somos membros das organizações desse espaço, partilhamos uma língua com valor universal, somos criativos e rápidos na resposta e detemos uma posição geográfica interessante para o mundo.De todos estes predicados, dois merecem uma certa relativização.É verdade que, num tempo que tem como maior constante a mudança permanente e rápida, a criatividade e a rapidez de resposta são ótimos atributos. Mas só o são se forem postos ao serviço de um esforço planeado, organizado, coerente e reiterado. Seria muito saudável erradicar da vida portuguesa conceitos como “safar-se” ou “desenrascar-se”…Por outro lado, as tecnologias e os meios hoje disponíveis, não fazendo desconsiderar a geografia, tornam-na menos importante. Isso faz com que, num Mundo globalizado e “contraído” como o nosso, o valor da posição não seja um dado fixo e a condição periférica, mais do que uma fatalidade ou uma condição geográfica, seja fundamentalmente uma questão de vontade, de inteligência e de conhecimento.E o que podemos tomar como coisas menos boas? Em primeiro lugar a dificuldade, se não a resistência, para agirmos com determinação e de modo coletivo, consistente e reiterado, também alguma negligência quanto ao conceito de rigor, estagnação económica, crise demográfica (natalidade e envelhecimento) e incompreensíveis e perniciosos distanciamentos entre sociedade, economia e escola.Claro que à estagnação económica tem de ser associada a exiguidade das condições de vida dos cidadãos, em particular dos mais idosos e dos mais jovens e em início de vida própria. É grave não se atentar em quanto as pessoas, em particular as mais qualificadas, são centrais para a vida coletiva. Como recurso fundamental. Como razão de ser e motor de toda a ação política, económica e social. A inerente dignidade das pessoas faz com que atentar nelas seja desde logo um critério moral e ético. Mas compreendendo que sem as pessoas não há sucesso sustentado, essa atenção vale por também ser um critério pragmático.Temos mesmo de quebrar o ciclo da estagnação! É urgente! O que só será viável com esforço e compromisso coletivos e levando em linha de conta as circunstâncias e as tendências globais e europeias.Admitindo que esta leitura não é inteiramente desajustada, o aspeto mais importante que dela se pode retirar – e, mais uma vez, esta é uma avaliação subjetiva – é que as nossas vantagens são apreciavelmente estruturais e, portanto, sensivelmente permanentes, enquanto, exceção feita ao envelhecimento, cuja principal resposta é a natalidade, as nossas fragilidades, são fundamentalmente conjunturais e, portanto, suscetíveis de superação. Assim o queiramos.Temos de retirar razoabilidade à visão que sustenta que os Portugueses são fantásticos na excecionalidade, mas frequentemente medíocres na normalidade. Nada disto corresponde forçosamente a um dado cultural carregado de fatalidade. Mesmo se fosse um dado cultural teria de ser alterável.O adequado conhecimento de nós próprios é naturalmente um parâmetro importante na definição do que pretendemos para a nossa postura e atitude num mundo tão complexo como o do presente. Um mundo carregado de instabilidade e imprevisibilidade, onde é assustadora a crise das lideranças. Um mundo percorrido por tensões entre abordagens que privilegiam uma certa Geopolítica do Poder e outras, em particular na Europa, que continuam a enfatizar e a defender os valores do Multilateralismo e da Cooperação.As condições do presente não são consentâneas com políticas de curto prazo, tão afins dos piores eleitoralismos. É imperativo adotar perspetivas novas e essenciais e é isso que torna tão especialmente gritante o problema das lideranças.Quando nos questionamos sobre como é que Portugal se deve inscrever nestes novos cenários e condições, talvez a resposta possa ser simples. Portugal deve inscrever-se como a generalidade dos outros Estados. Valorizando as suas vantagens e trabalhando para cuidar das suas fragilidades. Sendo competitivo, sem nunca negligenciar a cooperação.