Nem todos os portugueses sabem exatamente o que significa uma agência de rating subir Portugal de A para A+. E é natural. As classificações das agências financeiras parecem muitas vezes pertencer a um mundo distante da vida de quem trabalha, paga impostos, tem uma empresa ou chega ao fim do mês a fazer contas.
Mas esta é uma boa notícia para o país. E merece ser entendida como tal.
A Fitch subiu a classificação da dívida portuguesa de A para A+, mantendo uma perspetiva estável. Em linguagem simples, significa que Portugal é hoje visto como um país mais seguro para quem lhe empresta dinheiro. Há mais confiança na nossa capacidade de pagar o que devemos e menos risco associado à dívida portuguesa.
Não chegámos aqui por acaso. A Fitch destaca a melhoria das contas públicas, a redução da dívida e resultados orçamentais melhores do que os de muitos países com classificações semelhantes. E há um pormenor que merece ser sublinhado: a agência reconhece que a disciplina das contas públicas tem sido mantida ao longo de sucessivos governos.
É importante dizê-lo, porque a credibilidade financeira de um país não se constrói numa legislatura, muito menos num ano. Portugal pagou um preço elevado para recuperar a confiança que perdeu durante a crise da dívida soberana. Houve sacrifícios, decisões difíceis e um longo caminho de recuperação. Governos de diferentes cores políticas contribuíram, em diferentes momentos, para chegarmos à situação atual.
Um país não equilibra as contas apenas para receber uma boa nota de uma agência internacional. Equilibra-as porque uma dívida mais controlada dá maior capacidade para enfrentar uma crise, protege as gerações seguintes e reduz a vulnerabilidade perante aquilo que não conseguimos prever.
Foi isso que aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, com as crises das últimas décadas. Quando tudo corre bem, é fácil acreditar que haverá sempre dinheiro para tudo. O problema chega quando a economia abranda, as receitas diminuem ou aparece uma emergência que obriga o Estado a gastar aquilo que não estava previsto.
É por isso que o A+ deve ser recebido com satisfação, mas não com euforia.
"Um país não equilibra as contas apenas para receber uma boa nota de uma agência internacional. Equilibra-as porque uma dívida mais controlada dá maior capacidade para enfrentar uma crise.”
Aliás, a Fitch também deixa avisos. A dívida portuguesa continua elevada quando comparada com a dos países que têm uma classificação semelhante. A produtividade permanece baixa e limita a capacidade de crescimento da economia. E a agência prevê que, depois de um crescimento de 2,1% este ano, a economia avance 1,9% em 2027 e 2028.
Portugal já demonstrou que consegue melhorar as contas públicas. Precisa agora de provar que consegue transformar essa estabilidade em mais crescimento, melhores salários, empresas mais competitivas e melhores condições de vida.
Rigor orçamental não significa que o Estado não possa investir ou que não possa baixar impostos quando existe margem para o fazer. Significa escolher prioridades e garantir que as decisões de hoje não deixam uma fatura impossível de pagar amanhã.