Vanessa Martins, dona da Frederica, gravou um vídeo com o quiz “Contrata ou Despede”. A cada pergunta respondia se despedia, promovia ou treinava os funcionários. As respostas sobre trabalho fora de horas e nas férias geraram enorme polémica e foram caricaturadas por Joana Marques.
Não faço ideia se Vanessa Martins é boa ou má patroa, mas interessam-me as ideias sobre o trabalho que as suas respostas revelam. Parecem resultar de uma cultura e de um modelo social que, nas últimas décadas, tendem a tornar-se dominantes.
No início deste século, os blogues abriram caminho a pequenos negócios construídos em torno de uma pessoa e da sua imagem. Vieram depois as redes sociais e os “influenciadores”. A vida tornou-se montra, a montra tornou-se marca, a marca tornou-se empresa. Publicar, vender, responder, aparecer e nunca desaparecer do ecrã. É isso que Vanessa faz e é por isso que fez o quiz, simples, taxativo e indiscutível, como todos os quizzes. A rapidez da resposta vale mais do que a sua qualidade.
Neste mundo de autopromoção, a gestão empresarial reduz-se a conteúdo nas redes sociais para captar visualizações, polegares para cima, coraçõezinhos e partilhas, convertíveis em vendas. Aqui não há trabalhadores, mas há um patrão-vedeta.
Esta cultura, explicada pela própria Vanessa com a desconsoladora palavra “start-up”, encontra uma velha ideia neoliberal: o sucesso depende da intensidade da entrega individual, uma elipse conceptual que nos aproxima da escravatura.
E assim ouvimos os patrões e patrõezinhos do século XXI, sexys e joviais, a falar como os magnatas de cartola do século XIX: “Na minha empresa somos uma família. Todos vestem a camisola. É preciso dar o litro!”
A disponibilidade passa a chamar-se “atitude” e o respeito pelo horário é falta de ambição. Quem atende o telefone nas férias merece promoção. Quem desliga precisa de formação... Claro que és livre de dizer não, mas, desculpa lá, és despedido.
Vanessa Martins mimetiza o comportamento dos ultrabilionários deste planeta, convencida, suponho, de ser essa a via para o sucesso.
Jack Ma, fundador da Alibaba, exaltou o regime “996”: trabalhar das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana. Narayana Murthy, fundador da Infosys, defendeu semanas de 70 horas. Elon Musk exigiu aos trabalhadores do Twitter jornadas longas e intensas.
Para se defender, Vanessa mostrou depois o escritório vazio à sexta-feira: os funcionários podiam trabalhar em casa, como se o teletrabalho fosse moeda para comprar disponibilidade permanente. Invocou a necessidade de assistência à sua loja online, como se um problema de gestão devesse tornar-se uma prova moral para quem lá trabalha.
Outro mecanismo repete-se aqui: a indignação nas redes sociais transforma uma discussão sobre trabalho numa discussão sobre Vanessa. Se é boa ou má pessoa, se merece críticas ou está a ser “cancelada”. Pelo meio, não falta quem acabe por defender as suas ideias, assim relativizadas, justificadas e até validadas. O linchamento digital dá à polémica um protagonista e faz esquecer os trabalhadores.
Direitos sociais não podem depender de gratidão ou servilismo. A simpatia de quem manda não substitui direitos conquistados ao longo de décadas de luta.
A pergunta importante não é, afinal, porque despede Vanessa Martins. É esta: porque se tornou tão fácil defender que o tempo pessoal e familiar pertence a quem nos paga o salário?