Numa missão de Direitos Humanos, num país longínquo, tive de lecionar um módulo sobre igualdade de género. A esmagadora maioria da sala, formada por profissionais de uma área tradicionalmente masculina, era composta por homens. Todos consideraram aquele módulo desnecessário, uma grande perda de tempo. “Já temos isso”, disse um com desdém. “Agora temos uma lei em que as mulheres podem fazer o nosso trabalho e é tudo igual.” Todos concordaram. Podíamos passar ao módulo seguinte. As mulheres não abriram a boca.No dia seguinte, fizemos uma atividade só com as cinco mulheres da sala. E os resultados foram chocantes. Todas elas - todas, sem exceção - referiram ter sido vítimas de assédio sexual naquela instituição. As histórias eram todas semelhantes: começavam com brincadeiras ou avanços mais ou menos explícitos e terminavam com represálias para as que resistiam, umas formais, como transferências internas, outras informais, como assédio moral. Tudo isto era normal para os homens, porque sempre haviam tratado as mulheres assim.Entretanto, numa universidade portuguesa, um professor catedrático assegurou, com voz firme e perante um público de académicas jovens, que nunca, naquela instituição, alguma mulher havia sido discriminada. Mas o que as académicas concluíram foi que uma instituição que tem à sua frente um homem que fala de forma tão categórica sobre igualdade de género tinha muitos telhados de vidro.Estes casos mostram que, quando queremos perceber a existência de opressão, não basta ouvir apenas quem nunca a sentiu. Eu própria, sendo branca, já fui das que achavam que Portugal não era assim tão racista. Isso mudou quando integrei um grupo de trabalho sobre racismo e, ao ouvir as experiências dos outros, consegui sair da minha perspetiva do mundo. Eu nunca tinha sentido o que é entrar num supermercado e ser imediatamente vista como suspeita. Nunca tinha reparado que notícias sobre criminalidade eram ilustradas com imagens de braços negros algemados. E o meu filho nunca me perguntou por que razão não havia “meninos como ele” na televisão ou nos livros.É claro que não vivemos num sistema oficial que proclame o racismo ou o machismo, mas isso não significa que a discriminação tenha desaparecido. Ela tornou-se mais difusa e mais fácil de negar. Os obstáculos e os vícios que persistem são frequentemente invisíveis para quem nada sofre com eles. Eu não sinto a falta da rampa, quando posso subir quatro degraus de escadas sem pensar.E é por isso que, por vezes, é tão difícil falar com alguns homens sobre igualdade de género. Não necessariamente porque sejam maus, abusivos ou machistas assumidos, mas porque muitas dessas barreiras continuam a ser invisíveis aos seus olhos. Por isso, se quisermos saber se o dia 8 de março ainda é necessário, ouçamos as mulheres.