Política: ciência ou arte de governar;
conjunto de princípios e de objectivos
que servem de guia à tomada
de decisão…
Propósito: deliberação, resolução,
decisão; projecto; fim …
'In' Dicionário
da Língua Portuguesa, 2009,
Porto Editora, páginas 1258 e1296.
Por vezes, para não dizer sempre, há vantagem em voltar aos conceitos básicos, tanto eles se vão perdendo, na vertigem desta “comunicação” que hoje nos subjuga.
De facto, falar, escrever, desenhar, colocar emojis, vai ganhando uma dimensão que, de tão vazia, nada comunica.
E o que vulgarmente qualificamos como actividade política vai frequentemente caminhando no mesmo sentido. Algumas vezes por falta de princípios e objectivos claros, outras por ausência de projecto ou finalidade e, muito frequentemente, por desconhecimento da realidade, disfarçado numa torrente de palavras que servem mais um exercício táctico do que a comunicação com propósito.
O mainstream político europeu e português anda frequentemente sem política e sem propósito, a tentar explicar o crescimento dos partidos radicais que hoje pululam por toda a Europa. Com excessiva facilidade se externaliza a responsabilidade. Ou é de Donald Trump, ou de Putin, ou…
É verdade que ambos apoiam largamente tais partidos, mas quem lhes criou o exército fomos nós, por acção e/ou por omissão.
Antes de mais por omissão. Esquecemo-nos de fazer a pedagogia da democracia e da liberdade. Esquecemo-nos do poder do exemplo e esquecemo-nos da estabilização das classes médias. E, em Portugal, esquecemo-nos de dizer às novas gerações como, em três décadas, passámos de um povo descalço, analfabeto e que morria na mais tenra infância, para um povo educado, com sapatos, saudável, em suma, europeu.
Mas, também por acção.
Trabalhar honradamente e não ser capaz de se sustentar ou de arrendar uma casa não pode acontecer.
Termos 50% dos nossos adultos em situação de pobreza monetária, estando inseridos no mercado de trabalho, é uma distorção inaceitável da distribuição dos rendimentos.
Vivermos em campanhas permanentes de recolha de ajudas e de distribuição gratuita de alimentos e refeições devia envergonhar-nos, enquanto comunidade.
Sermos destinatários de uma carga fiscal que fontes oficiais confirmam que continua a crescer é alimentar o exército dos descontentes.
Vivermos com um salário mediano de €1050 euros que, inexplicavelmente, permite a mais de metade dos portugueses suportar as suas contidas despesas mensais (com os dois milhões de reformados e pensionistas a situação é bastante mais grave). É a evidência da dimensão da nossa economia subterrânea.
A desigualdade acentua-se violentamente quando, antes do actual pico inflacionista, 20% da população portuguesa se encontrava em risco de pobreza ou de exclusão social.
Este não é um problema português. É um problema da obesa, burocrática e sem propósito Europa, como o Eurostat evidencia.
Política, propósito, tacticismo, ou o exército que criámos e entregámos, quase sem combate, à liderança dos radicais.
Voltar à política com propósito é um imperativo republicano, em nome da esperança das novas gerações.
A lamúria não resolve, o pensamento e a acção, sim!.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico