A Festa no Chiado deste ano teve um momento alto na recordação de Nuno Júdice, entre os jovens poetas do Centro Nacional de Cultura. Corria o ano de 1965 e o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores pela atribuição do Grande Prémio ao romance de Luandino Vieira Luuanda caiu como uma bomba.
Defensor estrénuo da liberdade, Francisco Sousa Tavares não teve dúvidas em tornar o Centro Nacional de Cultura um contraponto relativamente à afronta cometida contra a liberdade da criação e das ideias e convenceu Sophia de Mello Breyner (apesar de esta resistir) a assumir a presidência do Centro Nacional de Cultura, pondo a tónica numa renovação geracional da literatura portuguesa.
Luís Filipe Castro Mendes recordava-me há dias que ele próprio ficou surpreendido quando lhe deram conta do que então se passava na Rua António Maria Cardoso, antes identificada por uma lógica algo conservadora. Ao participar da nova realidade e das suas iniciativas, depressa se apercebeu que, de facto, Sophia e Francisco representavam uma lufada de ar fresco, com a capacidade de contar com as gerações mais jovens, fascinadas pelo carisma poético e intelectual da autora de Mar Novo.
Foi o tempo em que Nuno Júdice, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luísa Neto Jorge participaram desse instante de renovação. Agora, uma participante regressada às salas do Centro dizia emocionada: “Foi aqui que estive a última vez com Ruy Belo.” A memória sempre renasce e se renova. O tempo é fonte de fascínio.
O lugar tornou-se então naturalmente ponto de encontro de ideias e de esperanças. Nuno Teotónio Pereira pontuava apontando novos horizontes de liberdade de autodeterminação. E a polícia política não largou aquelas paragens. Eduardo Prado Coelho e António Reis animavam cursos e debates. Zeca Afonso e Francisco Fanhais tornavam-se familiares. “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.”
Tudo isso recordámos quando, primeiro na Livraria Bertrand, com sala cheia, com todas as suas memórias, ouvimos as palavras puras e marcantes de Nuno Júdice, numa impecável organização de leitura de poemas de Manuela Júdice, com os tempo certos, a atenção desperta e o entusiamo sentido. Joana Matos Frias, já na galeria do Centro, com lotação esgotada, recordou-nos a força poética do autor, com a confirmação testemunhal de amizade de Luís Castro Mendes.
O Nuno era sempre inesperado, mas sereno e seguro. Trabalhámos muito tempo juntos e tenho saudades da sua exigência, do seu trabalho, da sua pontualidade, até ao último dia. E não esqueço ainda o seu humor e sentido crítico. “Vieram dizer-me que a minha língua é a maior que há no mundo. Ao espelho, ponho a língua de fora: é a minha língua, é portuguesa, mas não sei por que é que a consideram a maior língua do mundo. Por muito que veja a minha língua ao espelho, a língua que vejo não é maior, nem mais pequena do que milhões de outras línguas que há neste mundo.”
De modo desarmante, o que aqui nos diz o Nuno vale mais do que um ensaio ou do que a repetição de frases feitas que se usam maquinalmente. Mas há sempre a força dos princípios na noção do poema: “Podíamos saber um pouco mais / do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar / de amar ao saber exatamente o que é o amor, ou / amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada / sabemos do amor.”