Podem os pais sobreviver à morte de um filho?

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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A morte de um filho é, provavelmente, uma das experiências mais devastadoras que um ser humano pode enfrentar. É uma dor que desafia a lógica, abala crenças e rompe a ordem natural da vida. Esperamos que os filhos sobrevivam aos pais, nunca o contrário. Por isso, quando uma criança, um adolescente ou mesmo um filho já adulto morre, algo muda para sempre na vida daqueles que ficam. A pergunta que tantas vezes surge é inevitável: podem os pais sobreviver a esta perda?

A resposta é sim, mas não no sentido em que a vida volta a ser igual. Os pais sobrevivem porque continuam a viver, a cumprir rotinas e a enfrentar os dias. Contudo, a perda passa a fazer parte da sua identidade e da sua história. Sobrevivem, mas carregando uma ausência que nunca deixa verdadeiramente de existir.

Esta realidade começa, muitas vezes, ainda antes do nascimento. Quando ocorre uma perda gestacional ou uma morte fetal, há quem minimize a dor com a ideia de que “ainda não era um bebé”. Mas um filho começa a existir muito antes de nascer. Existe nos sonhos, nos planos, no nome escolhido, no amor que já encontrou lugar no coração dos pais. Quando essa vida termina, o luto é real e deve ser reconhecido e validado.

Quando morre uma criança ou um adolescente, a dor é acompanhada, frequentemente, por sentimentos de injustiça, impotência e culpa. Os pais interrogam-se sobre o que poderiam ter feito de diferente. Procuram respostas para perguntas que, na maioria das vezes, não têm resposta.

E quando a morte acontece a um filho adulto, a sociedade tende a acreditar que será mais fácil suportá-la. Mas não é. Porque o amor parental não tem prazo de validade. Um filho de 5, 15 ou 50 anos continua a ser um filho.

Perante uma perda tão profunda, não existe uma forma certa de viver o luto. Alguns pais precisam de falar incessantemente sobre o filho; outros recolhem-se em silêncio. Uns procuram apoio na família, nos amigos, na espiritualidade ou na psicoterapia; outros necessitam apenas de tempo e espaço.

O mais importante é compreender que o luto não consiste em esquecer nem em “seguir em frente”. Consiste em aprender a viver com a ausência, sem deixar de honrar a presença que aquela pessoa teve na nossa vida.

Muitas vezes, aquilo de que os pais mais necessitam não são palavras perfeitas, mas sim presença. Alguém que escute sem julgar, que respeite as lágrimas, que não tenha receio de pronunciar o nome do filho e de reconhecer a dimensão da perda. Porque o maior medo de muitos pais enlutados não é recordar – é sentir que o mundo esqueceu quem eles nunca conseguirão esquecer.

A dor da morte de um filho nunca desaparece completamente. Mas, com apoio, amor e tempo, pode transformar-se. Não numa dor menor, mas numa dor mais integrada, que permite voltar a encontrar significado, esperança e até momentos de alegria.

A cicatriz permanece para sempre. E talvez seja precisamente isso que nos recorda que, mesmo diante da morte, o amor entre pais e filhos continua a existir.

Afinal, os pais sobrevivem à morte de um filho porque o amor lhes dá razões para continuar.

Uma respiração de cada vez.

Um dia de cada vez.

Uma memória de cada vez.

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