Pode uma censura lavar como o Omo?

João Oliveira

Eurodeputado pelo PCP

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Uma moção de censura é, em princípio, o instrumento institucional mais forte para criticar o Governo e as suas políticas. Mas pode não o ser. E é esse o caso da moção de censura apresentada pelo Chega.

Apesar de ser apresentada como uma moção de censura, a iniciativa do Chega é uma espécie de solução concentrada de detergente para lavagem de responsabilidades políticas.

Em primeiro lugar, lavagem de responsabilidades políticas do Governo.

O Chega fez um favor ao Governo ao concentrar atenções na situação do ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves, deixando de fora da moção de censura todas as razões da crítica que há a fazer ao Governo PSD/CDS pelas políticas que prossegue.

O aumento do custo de vida, a desvalorização dos trabalhadores e a falta de uma política de aumento de salários, a falta de acesso à habitação, as dificuldades no acesso à Saúde e o desmantelamento do SNS, os problemas criados com as opções de política educativa são apenas uma parte do conjunto de problemas que diariamente atingem o povo em consequência das políticas do Governo PSD/CDS. Nesse conjunto de dificuldades encontramos idêntico número de razões de censura ao Governo e às suas políticas.

Mesmo que achasse que a falta de esclarecimento cabal sobre todas as dúvidas e especulações que envolvem o MAI seria motivo suficientemente grave para censurar o Governo, o Chega tinha obrigação de ter-lhe acrescentado todas aquelas demais razões (e são muitas...) para censurar o Governo.

Ao fazer a opção contrária, deixando tudo isso de fora e concentrando atenções em Luís Neves, o Chega contribui para a lavagem das responsabilidades políticas do Governo, dispensando PSD e CDS de responderem por tudo o que de mais prejudicial vão fazendo contra o povo e o país.

Em segundo lugar, é também muito evidente o objectivo de lavagem da responsabilidade política de quem acompanha o Governo nas políticas que vai praticando. A começar pelo próprio Chega, o autor da moção de censura.

Sendo evidente o extenso elenco de razões para a censura ao Governo, é igualmente evidente que PSD e CDS não têm, na Assembleia da República, a força suficiente para decidirem sozinhos.

Essa circunstância determina que as políticas do Governo PSD/CDS só vêem a luz do dia porque contam com o apoio de Chega e Iniciativa Liberal e a cumplicidade ou conivência do PS.

Isso deveria determinar a correspondente repartição de responsabilidades entre todos esses partidos por aquelas políticas.

Ao apresentar uma moção de censura ao Governo que ignora as políticas governamentais e as suas dramáticas consequências sobre os trabalhadores e o povo, o Chega procura também lavar as suas próprias responsabilidades no apoio que dá a essas políticas.

Com a vantagem ainda de, sendo o autor da iniciativa, fingir que se opõe a um Governo a quem, afinal, todos os dias dá a mão.

Adaptando uma famosa expressão da história política portuguesa, é caso para dizer que nódoas destas nem com benzina saem...

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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