João Salgueiro deixou uma herança maior ao país, que não pode ser esquecida ou desperdiçada. De facto, mais do que no exercício de um poder direto, foi alguém que deixou uma marca perene na sociedade portuguesa. A publicação pela Imprensa Nacional do precioso volume João Salgueiro - Planeamento, Política e Economia, coordenado por Emílio Rui Vilar e Rita Bessone Basto, com prefácio do Presidente da República, representa uma inesperada e necessária reunião de textos, criteriosamente escolhidos com grande cuidado, que dão um retrato fiel de um percurso único de alguém cujas lições de vida continuam bem presentes, devendo ser seguidas em nome da melhor defesa do bem-comum.Muitas vezes se repete que o improviso é uma suposta qualidade dos portugueses. Puro engano. É uma característica que pode compensar alguns erros, mas que não deve erigir-se em método. Olhe-se a História portuguesa. Só pudemos ser relevantes quando fomos capazes de planear, de antecipar e de preparar cuidadosamente o que deveria fazer-se. Leia-se Zurara, compreenda-se a figura do infante D. Henrique, lembre-se o caminho do Príncipe Perfeito e de D. Manuel, e não se esqueça Sebastião José…O improviso só pode funcionar quando os desígnios já são claros e definidos. Caso contrário, nada acrescenta. Ao lermos os textos que agora se apresentam, compreendemos que “o desenvolvimento é demasiado sério para poder ficar ao sabor das circunstâncias”. Eis por que as intervenções têm um apurado sentido pedagógico, deixando bem vivo o exemplo de quem os disse e escreveu.As seis partes que constituem o livro seguem os temas: Planeamento, SEDES, Política, Banca, Integração Europeia e Globalização, Crise Financeira, os Desafios da Economia Portuguesa.O texto de dezembro de 1969 assume uma importância fundadora. Tratava-se de Construir Uma Sociedade Nova. Era o fim da autarcia que tinha de se concretizar. “A substituição das políticas protecionistas por esquemas de promoção ativa (das exportações) constitui, assim, condição de sobrevivência para as nossas unidades de produção. (…) De facto, quer tenhamos, ou não, consciência antecipada do fenómeno, trata-se verdadeiramente de construir nos próximos decénios uma sociedade nova”. Havia que concretizar um “planeamento objetivo, coerente e eficaz”, para que as aspirações de progresso dos portugueses dessem lugar a uma “obra verdadeiramente comum de desenvolvimento económico e social”.Como nos disse tantas vezes na SEDES, havia um trabalho persistente que exigia uma ponderação dos meios disponíveis, das capacidades humanas mobilizáveis e dos bloqueamentos. Em dez anos que presidi à Associação contei sempre com a sua disponibilidade, o seu compromisso e o desafio constante à ideia de reforma. Por isso, repetia tantas vezes: “Mudanças adiadas são ruturas agravadas.”Num texto notável, no primeiro ciclo do CIDSENIOR, animado por Alberto Regueira, intitulado Do Restelo à Globalização - Da sobrevivência e da relevância portuguesa (2017), João Salgueiro afirma que Portugal, fiel à sua História, deve ter um projeto que garanta níveis superiores de inovação e de competitividade, necessitando de um projeto solidário, para que a transformação não produza desigualdades e custos mal distribuídos. Mas acrescentava que, apesar do consenso sobre os grandes desígnios, não temos conseguido traduzi-lo em estratégias de mudança… Eis o dilema.