O país tem vivido na sua versão ciclotímica entre dias dominados pela angústia de não ter casas e dias de entusiasmo com o anúncio de novas e muito impressivas infraestruturas.
Os recursos são finitos pelo que, em investimentos desta dimensão, convirá termos um planeamento para a próxima década.
Bem sei que uma década, com os ciclos políticos constitucionalmente fixados, inibe esse péssimo hábito nacional de transformar as obras públicas em arma de arremesso político.
Como muitos se lembrarão, o país viveu, na última década do século XX e na primeira deste, um forte investimento em infraestruturas, sobretudo em infraestruturas de transporte.
Recordar-se-ão que essas infraestruturas foram construídas com recurso a capitais privados, solução curiosamente diabolizada pela direita política, até ao momento em que lançou mão do mesmo instrumento.
Mas, a perplexidade aumenta quando no passado fim de semana lemos nos jornais que uma linha férrea recentemente inaugurada não vai funcionar porque tem de voltar a ser certificada, que vamos comprar comboios para linhas que ainda não temos e que os júris dos concursos públicos terão dúvidas sobre como terão sido dimensionados viadutos e pontes das linhas de alta velocidade.
Por isso conviria os portugueses serem informados sobre o calendário e os custos previsíveis das grandes infraestruturas de transporte.
Vejamos. Na próxima década teremos, em simultâneo, em construção, a ser verdade o que nos dizem, pelo menos o seguinte:
400km de linha de alta velocidade com várias pontes e túneis;
uma ponte rodoferroviária sobre o Tejo (Chelas-Barreiro);
um Túnel sob o Tejo (Algés-Trafaria);
um Aeroporto Internacional.
Isto, além de um sem número de casas cuja quantidade ninguém se arrisca a calcular.
Neste mesmo período termina o prazo de várias – quase todas – concessões rodoviárias: Brisa, Travessias do Tejo, Oeste, Norte, Beira Interior, Algarve, Costa de Prata, Interior Norte, Norte Litoral, Beira Litoral e Alta, Grande Porto…
Tudo o que se disse é factual e, por isso, mais preocupante.
Agora pergunta-se:
a) Há um planeamento para todos estes investimentos que, porque consensual, não vai sofrer os habituais atrasos com as mudanças de governo?
b) Esse planeamento, a existir, tem contempladas as adequadas fontes de financiamento?
c) O país sabe como e onde é que vai encontrar os adequados e imprescindíveis recursos humanos?
d) Está a Administração Pública portuguesa a ser preparada para, na próxima década, preparar, negociar e acompanhar a execução de centenas de contratos complexíssimos que nos vincularão para todo o século XXI?
Bem sei que é mais fácil inaugurar, fazer discursos tonitruantes e tudo anunciar, muitas vezes no limiar da inconsciência e da ignorância.
Um pouco de planeamento e de clareza na relação entre governantes e governados seria, além de um tónico para a democracia, profundamente mobilizador de um povo que precisa de causas e estímulos.