Piketty contra o impulso humano de crescer

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O mundo quer-se para crescer. Foi assim ao longo da história. Foi o crescimento, a inovação e a procura de novos limites que levaram o homem desde as cavernas ao espaço. Goste-se ou não, a história do mundo nunca será plafonada por um pseudo-engenheiro social com uma régua distributiva na mão. O homem arranjará sempre forma de romper barreiras e ir mais além.

O relatório de Thomas Piketty (https://globaljusticeproject.wid.world/) parte de uma preocupação totalmente legítima, i.e., desigualdade, preocupações com o clima, a saúde e a educação. Chega, porém, a uma solução totalmente errada: substituir o movimento livre da criação por uma arquitetura global de compressão e redistribuição. É, de resto, uma velha tentação: como o mundo é imperfeito, alguém terá de o desenhar de cima. Um génio. Mais um. Arranje-se um nome para o novo deus: Picketty. E, desenhando-o, fixa-se o rendimento, limita-se a riqueza, encurta-se o trabalho, cria-se um fundo global, impõe-se uma escala entre ricos e pobres e entrega-se a uma instância internacional o poder de corrigir a humanidade.

Adam Smith teria desconfiado. E muito. Mesmo se há 250 anos atrás. Não por desprezo pelos pobres, até porque Smith sabia que uma sociedade onde muitos vivem miseravelmente não é uma sociedade decente. Antes porque compreendia algo que Piketty parece subestimar: a riqueza não nasce da distribuição; nasce da produção, da especialização, da liberdade de troca, da poupança, do investimento, do risco e da inovação. Só depois de criada a riqueza pode e deve ser distribuída.

Há no relatório uma ambição moral que se transforma em puro manifesto político. A ideia de comprimir rendimentos e riqueza pode parecer elegante num modelo, mas é pobre, e utópica, na vida real. As pessoas não produzem, arriscam, estudam, inventam e suportam fracassos para caberem numa tabela. A economia não é uma folha de Excel com almas dentro. É um sistema vivo de incentivos, ambição e concorrência.

É perigosa, e totalmente falaciosa, a fantasia de financiar o futuro confiscando o topo. Taxar progressivamente é legítimo; transformar fiscalidade em punição é outra coisa e outro campeonato: o da inveja. Quando o sucesso passa a ser tratado como anomalia moral, o investimento retrai-se, o capital foge, a inovação abranda e os melhores deixam de procurar o impossível. E sem essa procura não há vacinas, energia limpa, inteligência artificial, empresas globais ou mobilidade.

O combate não pode ser contra o crescimento. Tem de ser contra o mau crescimento: predatório, monopolista, corrupto, fechado, extrativo. Smith também combateu privilégios e, bem assim, a captura do Estado por interesses instalados. Mas a resposta não é nem nunca será plafonar a humanidade. É abrir mercados, educar melhor, exigir concorrência, premiar mérito, proteger os vulneráveis, investir em ciência e colocar a inovação ao serviço das pessoas.

Piketty quer justiça por compressão. Smith ensinou-nos que a prosperidade vem da energia criadora dos indivíduos quando inseridos em instituições decentes. A primeira empobrece para igualar. A segunda cria para elevar. O mundo não precisa de menos crescimento. Precisa de melhor crescimento. Mais limpo, mais humano, mais exigente. Mas crescimento. Sempre crescimento. Quando o homem deixa de querer ir mais além, torna-se pequeno. E todos os casos em que houve tentativas para o conseguir tornar pequeno, felizmente, fracassaram. Qual terá sido o exemplo de sucesso que Piketty viu e analisou para se atirar para cima de uma solução inexequível? Certamente que houve muito maus sonhos e pesadelos, só pode!

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