Pedras vivas

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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Quando tomamos em nossas mãos um documento, uma peça arqueológica rara ou interpretamos um monumento, tomamos consciência de que a memória histórica é algo marcante, permitindo reviver a presença das gerações que nos antecederam. Há dias reuniu o Comité do Património Cultural da UNESCO em Busan, na Coreia do Sul, e entre as decisões adotadas encontram-se importantes exemplos que nos tocam de perto.

Antes de mais, os casos da Belle Époque, que correspondem aos magníficos teatros do Amazonas. O valor excecional desses monumentos simboliza um conceito de Arte global que mobiliza vontades e suscita um desafio permanente em prol do património como realidade viva. Importa dizer que a associação dos dois teatros parte da importância da sua diversidade. A cidade de Belém, no Grão Pará, foi fundada como Feliz Lusitânia, em 1616, por Francisco Caldeira de Castelo Branco, em frente da ilha de Marajó, com o objetivo de controlar o tráfego fluvial do grande rio equatorial. A cidade singularizou-se pela ordenação e pela amenidade climática. Ao invés, a cidade de Manaus nasceu num cenário adverso, constituindo um lodaçal, onde uma população heterogénea e os índios tinham uma economia de sobrevivência.

Em 1850, o governo brasileiro delimitou o novo Estado do Amazonas e Manaus foi designada como sua capital, num ambiente insalubre e pantanoso, fértil em mosquitos, com o risco de epidemias perigosas. Os indígenas extraíam das árvores um líquido branco, o cauchu, que servia aos colonos para impermeabilizar botas e vestuário. No desenvolvimento da industrialização descobriu-se o látex com finalidades alargadas e Charles Goodyear inventou o processo de vulcanização pela utilização do enxofre em altas temperaturas, que permitiu a fabricação de pneumáticos de borracha.

O resto da história é conhecido: graças à intervenção, em 1888, de John Boyd Dunlop e à ação de Edouard Michelin, a procura da borracha ganhou um impulso extraordinário na segunda metade do século. A Amazónia era o centro dessa produção, Belém e Manaus estavam no coração da nova industrialização. A população aumentou significativamente e as grandes companhias de navegação fizeram ligações diretas aos portos europeus.

O Theatro da Paz, de Belém, nasceu em 1878, inspirado na arquitetura do Alla Scala de Milão, com lustres de cristal, frescos nas paredes, decorações com folha de ouro, estátuas de bronze, pedras portuguesas e mármores italianos.

O Theatro Amazonas, de Manaus, foi desenhado por italianos e evidenciou-se pela riqueza dos mármores de Carrara, do soalho finlandês, do aço escocês, tudo para demonstrar o requinte máximo.

Cedo se manifestaram sinais de decadência. Os ingleses adquiriram sementes de seringueira e difundiram no império a produção da borracha, retirando gradualmente o monopólio do Amazonas. Em quatro décadas a era dourada deu lugar ao declínio. Durante a primeira guerra mundial Manaus era já uma sombra do que fora. Só em 1960 a zona franca permitiria uma certa recuperação da antiga aura.

Agora, a classificação da UNESCO relembra uma glória antiga e permite afirmar como o património cultural é um modo de eternizar a aventura humana.

Do mesmo passo, temos orgulho na classificação histórica de seis roças de S. Tomé e Príncipe (Monte Café, Água Izé, Diogo Vaz, S. João, Suny e Belo Monte) que permite lembrar a coragem e a dignidade das mulheres e homens que ali viveram e trabalharam duramente, mantendo vivo o seu legado.

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